segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Red Cocaine - Capítulo 5 - Se organizando para "A Amizade das Nações"

Por favor, avisem-me de qualquer erro de tradução ou de português.

Ver demais capítulos.
Ver pdf completo com as últimas atualizações.

Red Cocaine - Capítulo 5 - Se organizando para "A Amizade das Nações"

No Ocidente, quando as pessoas falam sobre operações de inteligência, o que eles normalmente têm em mente são operações secretas planejadas por serviços de inteligência, que nem CIA, KGB e a GRU. Este conceito presta um incrível desserviço as operações de inteligência Comunista, que envolve vários agentes, não apenas da KGB e da GRU, e que não são direcionados pelos serviços de inteligência, mas sim pela Conselho de Defesa, pelo Departamento de Órgãos Administrativos ou por outra organização do Partido que seja mais apropriada para a operação. Ou seja, as operações de inteligência são as operações do Partido Comunista designadas para servir aos interesses do Estado, estes que somente o Partido pode estabelecer. O serviço de inteligência não passa de um instrumento estratégico do Partido, novamente em total contraste com os Estados Unidos, que não possuem nada similar. A operação conhecida como "Druzhba Narodov", o capcioso plano do Khrushchev chamado a "Amizade das Nações" é especialmente interessante por conta da visão que nos dá das operações de inteligência dos Soviéticos.

Até mesmo em seu início, na segunda metade da década de 1950, a operação com drogas e narcóticos envolvia muito mais do que agentes da inteligência. Médicos e pessoas relacionadas à medicina também estavam fortemente envolvidas na análise, pesquisa e teste de drogas. A principal força motivadora deste esquema vinha do Nikita Khrushchev, o primeiro Secretário (e mais tarde, Geral) do Partido Comunista da União Soviética (CPSU). O plano inicial foi conduzido por uma força conjunta de militares/civis da Tchecoslováquia citada anteriormente. A incorporação da estratégia de traficar drogas dentro da estratégia de segurança nacional foi gerenciada por um comitê especial sobre a direção de Leonid Brezhnev. Este comitê, que existiu entre o outono 1956 e a primavera de 1957, foi o responsável por evoluir a estratégia Soviética e trazê-la para a era nuclear. O escolhido para ser o substituto do Brezhnev foi o Mikhail Syslov, um dos cabeças da ideologia Soviética. Os líderes do Subcomitê foram o Marshal V. D. Sokolovskiy (militar), Dimitryi Ustinov (indústria militar), Boris Ponomarev (assuntos exteriores) e o General Nikolai Mironov (inteligência).

Duas revisões foram feitas na estratégia Soviética de utilizar drogas e narcóticos durante esta reunião. A primeira envolvia o reconhecimento que as drogas poderiam ser uma arma muito eficaz para enfraquecer as forças militares inimigas. A segunda é que as drogas poderiam ser utilizadas para influenciar os líderes burgueses do Terceiro Mundo e os partidos de Social Democracia, porém ninguém estava previamente excluído.

A responsabilidade por analisar o mercado e quem seriam os alvos foi delegada para o Departamento Internacional do CPSU. O Departamento Internacional também estava envolvido na coleta de informação sobre corrupção dos líderes estrangeiros e no seu uso nas operações de chantagem, intimidação e exposição. O departamento também estava fortemente envolvido na propaganda e planejamento, e muito provavelmente foi o responsável pela liberação da informação do tráfico de drogas pelos Chineses.

A Administração Principal Política do Exército e da Marinha, o departamento que mantém um olhar ideológico sobre os militares, também estava envolvido nesta operação de tráfico de drogas desde o início. Já em 1956, o líder da Tchecoslováquia foi informado pelo general Soviético Kalashnik, o ideólogo da Administração Principal Política, sobre uma nova visão de como as drogas e os produtos químicos eram capazes de alterar a mente e o comportamento de milhões de pessoas. Esta era uma das cinco novas armas que eram capazes "destruir o inimigo antes que ele possa nos destruir". As outras armas consistiam em: ofensiva ideológica, que significa propaganda e enganação, política de borda feita sobre medida para separar o Ocidente, isolamento dos EUA, e por último, caos social e econômico. Era totalmente essencial, General Kalashnik explicou, “que os militares deveriam o mais rápido possível entender que existem armar muito mais efetivas do que as convencionais, incluindo as bombas nucleares”.

Uma explicação foi dada por Khrushchev no início do verão de 1963 em Moscou. Durante uma discussão informal, Khrushchev tinha acabado de criticar Marshal Rodion Ya Malinovsky por querer desesperadamente colocar os seus tanques no Ocidente. Depois Khrushchev explicou que os Soviéticos estavam operando estrategicamente simultaneamente em dois níveis, para engajar o Ocidente numa guerra. No primeiro nível estavam a trapaça, a desinformação e a propaganda. No segundo nível estava a destruição do Capitalismo utilizando o seu próprio dinheiro através das drogas. Assim que estes dois níveis tiverem obtido sucesso, Khrushchev enfatizava, "aí sim, você poderá utilizar o terceiro nível, Camarada Malinosvky, os nossos tanques".

Assim que ofensiva Soviética das drogas cresceu e foi ganhando maturidade, a sua organização foi ficando mais complexa - porém a sua direção e o seu segredo continuavam sobre controle estrito. Este era outra característica das operações Soviéticas: apenas por que uma operação expandia, não significa que o seu controle seria perdido. O Conselho de Defesa é um bom exemplo. O conselho continuou pequeno exatamente para não correr o risco de perder a sua direção e nem a sua segurança. Neste ramo das drogas, apesar de várias pessoas estarem envolvidas, apenas umas poucas sabiam a real razão da operação, ou até mesmo o maciço envolvimento dos Soviéticos.

As principais organizações da Tchecoslováquia que participaram neste negócio com as drogas estão listadas na tabela abaixo. A estrutura organizacional aplicada na Tchecoslováquia equipara-se a estrutura que era utilizada na União Soviética. Algumas organizações possuem nomes diferentes, por exemplo: a versão Tcheca do Departamento Internacional Soviético era o Departamento Estrangeiro; o Secretário Geral Soviético era o Primeiro Secretário; e a KGB Soviética era a Segunda Administração que estava sob as ordens do Ministério do Interior. Existiam centros de pesquisa diferentes na União Soviética, e as organizações Soviéticas eram maiores e mais variadas, porém em sua essência as duas estruturas organizacionais eram iguais.

A principal diferença era que as organizações Soviéticas tomavam as decisões estratégicas em escala global, eram maiores, e eram responsáveis pelos outros Partidos Comunistas que não haviam correspondentes na Tchecoslováquia. Esta última distinção é particularmente importante. Por exemplo, importantes ajudas para o desenvolvimento do tráfico de droga na América latina foram fornecidas pelos Partidos Comunistas locais, que se encontravam todos os anos em Moscou e apresentavam os progressos das operações com droga, dando recomendações de novas técnicas, mercados e táticas.
  

[Continua]!!

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Josué Guimarães – é possível que tenha sido um agente da KGB?

original:
http://stb.cepol24.pl/josue-guimaraes-e-possivel-que-tenha-sido-um-agente-da-kgb


No Brasil foi comentado o caso do escritor brasileiro Josué Guimarães (1921 – 1986),  que viveu em Portugal durante um certo tempo e sobre o qual foi escrito, em base ao Arquivo Mitrokhin, que colaborou com a KGB e que foi um agente deste serviço de inteligência soviético. No jornal brasileiro “Zero Hora”, publicado em Porto Alegre,  pessoas que conheceram o escritor comentaram sobre o caso, afirmando que ele não seria competente para cumprir um papel como este, pois era uma pessoa de convicções não comunistas, aberta e que falava demais. Afirmaram que alguém assim, simplesmente não servia para ser um agente da KGB. Todos aqueles que o conheceram ou que com base em suas experiências tinham algo a dizer a respeito, estão simplesmente convencidos de que a informação do semanário português “Expresso” (março 2016), que foi o primeiro a mencionar o caso do escritor Josué Guimarães, não passa de um sensacionalismo barato que não possui nenhuma cobertura de fatos.


Não conhecemos o conteúdo (não publicado) do Arquivo Mitrokhin que se encontra na Universidade de Cambridge; também não temos acesso às pastas da KGB em Moscou. Por isso, não podemos afirmar nada em concreto sobre a eventual colaboração deste escritor brasileiro com a KGB, nem excluir esta colaboração.  Neste texto, vamos tentar esclarecer por que não é possível excluir a possibilidade de colaboração.

Conhecendo um pouco sobre a prática do serviço de inteligência comunista tchecoslovaco da StB, podemos ter uma idéia sobre o trabalho da KGB soviética. O motivo é simples – o serviço de inteligência tchecoslovaco não somente recebia recomendações e ordens do serviço de inteligência soviético, como também seguia o seu exemplo, ou seja, atuava através dos mesmos princípios durante o trabalho, realizava as suas atividades operacionais no território de países estrangeiros e escolhia os seus colaboradores, trabalhando depois com os mesmos, de um modo idêntico ou semelhante. Conhecendo a maneira de agir da StB, podemos com certeza afirmar que o método de trabalho da KGB soviética não é totalmente desconhecido para nós. Sendo assim, podemos afirmar sem nenhum risco de erro, que os espiões de Moscou que trabalhavam em países estrangeiros também seguiam um padrão semelhante de trabalho.

Em primeiro lugar – as anotações por escrito que Vasili Mitrokhin fazia quando trabalhava para a KGB são somente provas indiretas. Não são fotocópias de documentos, mas “somente” frases e observações escritas, com base nos documentos originais que são e, certamente serão ainda por muito tempo, secretos. Com base em nossa experiência, podemos afirmar que as informações escritas por V. Mitrokhin não foram inventadas, mas sim apresentam o conteúdo dos documentos internos originais da KGB. Isso está bem demonstrado, por exemplo, no caso descrito por nós sobre o ilegal soviético que residiu durante os anos 50 no Brasil, Mikhail Ivanovich Filonienko. A veracidade das informações fornecidas por Mitrokhin, publicadas anteriormente no Ocidente, é confirmada pelo atual serviço de inteligência russo SVR, que nas suas páginas de internet descreve a história deste agente ilegal soviético. Existem inclusive alguns detalhes do livro do antigo arquivista da KGB, que não foram fornecidos pelos russos em suas páginas, mas foram confirmadas por nós. Desta maneira, é possível afirmar que a fonte “Mitrokhin” é duplamente confirmada. Logicamente, isso não permite que ninguém afirme que, tudo que se encontra no arquivo de Cambridge seja cem por cento verdadeiro. Mas muitos outros casos, não somente o de Filonienko, fazem com que essa fonte seja tratada como séria e bastante confiável e, o seu questionamento, deve ser feito de uma maneira complexa, ou seja, não somente através de impressões e observações gerais, mas também com provas concretas nas mãos. O mesmo vale, é claro, quanto a aprovação desta fonte como sendo totalmente confiável: sem a apresentação de outras fontes e provas o caso não poderá ser totalmente comprovado.

Sendo assim, resulta que não estamos em condições (por enquanto), de responder de um modo convincente à pergunta, se o escritor Josué Guimarães realmente foi um colaborador da KGB. Mas, como já esclarecemos, também não podemos excluir esta possibilidade. Nós tratamos o “Arquivo de Mitrokhin” como uma fonte confiável, mas também estamos cientes de que são “somente” anotações por escrito. Anotações que, em face da falta de acesso às pastas de Moscou, possuem um enorme valor.

Argumentos.

O escritor recebeu o codinome  “Gosha” (Gocha). Este fato somente não é suficiente para sinalizar que fosse um agente da KGB. Codinomes eram dados tanto para agentes e informantes, assim como para pessoas observadas e “trabalhadas” (processo de reconhecimento, monitoração e/ou abordagem operacional com determinado objetivo). O fato de receber um codinome comprova somente uma coisa – esta pessoa, por algum motivo, era um objeto de interesse por parte do serviço de inteligência soviético. Podia estar sendo monitorado como um inimigo, como alguém perigoso para a URSS (possibilidade que neste caso podemos excluir) ou como um potencial (inclusive inexperiente) informante e até colaborador. Um “trabalho” como este, geralmente durava aproximadamente um ano, às vezes mais, às vezes menos, e conduzia – após a finalização do reconhecimento sobre o “figurante trabalhado” – a um estágio seguinte, segundo a utilidade de determinada pessoa, de sua motivação para uma colaboração, ou de acordo com o plano operacional do oficial condutor.  Isso significa que,  dependendo do resultado do “trabalho”, esses encontros, ou continuavam a serem realizados ou eram interrompidos. Então, poderia tornar-se um contato de cobertura, ou seja, uma pessoa com a qual o “diplomata” se encontrava de uma forma totalmente legal. Poderia também tornar-se um informante consciente ou inconsciente, com o qual o oficial da KGB se encontrava conspirativamente, assim como poderia tornar-se inclusive um agente ou um contato secreto (um tipo de agente que colaborava com a KGB sem remuneração, mas como um agente de valor completo que fornecia informações e/ou executava operações ativas sob ordens de seu oficial condutor). Aqueles que negam as afirmações do “Expresso” de que Josué foi um agente da KGB, não excluem a possibilidade de que ele realmente poderia ter se encontrado com diplomatas soviéticos.  Foram 38 encontros em Lisboa, 2 em Buenos Aires e 2 no Rio de janeiro. Falta uma informação importante – qual foi o período em que ocorreram estes encontros? Somente no ano mencionado de 1976? Ou também durante um período maior de tempo? A quantidade de encontros leva à conclusão de que ocorreram durante um período mais longo de tempo, já que no âmbito de encontros com agentes tomava-se o cuidado de que, para minimizar o risco de serem descobertos, não fossem realizados mais de dois encontros por mês; somente em casos excepcionais era permitido que os oficiais realizassem uma quantidade maior de encontros. O simples fato destes encontros terem ocorrido, tampouco significam algo sério ou negativo, apesar de que indicam a existência de uma relação ou amizade fora do comum de “Gosha” com os soviéticos. Isso – segundo afirmam os seus defensores  – poderia ser o resultado de suas convicções esquerdistas (mas não comunistas). Isso é possível, assim como é possível também que em sua inocência ele não percebesse que havia se tornado informante de um diplomata ou de diplomatas soviéticos, que  provavelmente eram oficiais da KGB. Gostaríamos de lembrar, que mesmo que a grande maioria dos encontros ocorreram na capital de Portugal, o escritor e jornalista “Gosha” era cidadão brasileiro, ou seja, de um país que então era claramente anticomunista, governado por uma ditadura militar, fortemente de direita. Sendo assim, deveria ele estar consciente de que estes encontros poderiam ser vistos pelas autoridades brasileiras como, no mínimo, inapropriados e, talvez fosse melhor tomar cuidado para que as autoridades brasileiras não tomassem conhecimento sobre os mesmos. Outra questão é se ele foi um informante consciente ou inconsciente. Poderíamos escrever mais a respeito se soubéssemos se ele recebeu ou não remuneração financeira ou presentes, lembranças e favores de seu amigo soviético. É sabido que o recebimento de  qualquer tipo de prêmio ou favor, era visto por (todos) os serviços de inteligência como circunstâncias comprometedoras para o figurante que poderia fornecer argumento para um recrutamento. A fonte portuguesa não cita nenhuma informação sobre isso.
Graças às informações de Rodrigo, filho de Josué Guimarães, sabemos que ele entrou em contato com o político brasileiro Brizola na Argentina. Este, como líder informal de um grupo de oposição no exílio e como um político que continuava a ser importante, sem dúvidas, foi um objeto de interesse por parte da KGB. Isso significa que justamente este contato podia ser muito importante e interessante para um oficial condutor da KGB. Este poderia ser um argumento que apontaria para uma colaboração ou, pelo menos, um interesse maior da KGB pela pessoa do escritor brasileiro.
O perfil político do escritor é apresentado como argumento que exclui a possibilidade de sua colaboração com o serviço de inteligência soviético. Isso seria pura inocência, desinformação consciente ou, simplesmente ignorância. O fato de que ele não era comunista, poderia, aos olhos da KGB, somente aumentar o seu valor. Todo o comunista no mundo ocidental dos anos 70 sempre era mais suspeito de fazer algo ilegal, do que qualquer outra pessoa. Sendo assim, poderia encontrar-se sob observação da contraespionagem do país, que via aos comunistas como inimigos. Além disso, as circunstâncias em que alguém não fazia parte do partido comunista poderiam ser extremamente atraentes para a KGB. Pois há mais esperteza em reunir informações, não onde elas surgem à vontade (já que os comunistas forneciam informações voluntariamente), mas sim, lá onde haviam menos fontes. Ou seja, em outras palavras – os comunistas serviam menos para serem agentes de um serviço de inteligência. Além disso, os contatos de maior importância eram aqueles através dos quais  poderiam ser realizadas operações ativas, ou seja, ações que faziam parte da política de influência soviética em territórios estrangeiros. Pois os textos de um escritor considerado como não comunista (mesmo que seja de esquerda) possuem maior força de persuasão, em uma sociedade democrática, do que aqueles escritos por alguém que é associado com comunistas. Neste caso, a força de convicção é maior. E também mais perigosa, caso o escritor transmita em seus textos os pensamentos, as idéias e os pontos de vista que lhe foram ditados por alguém de Moscou. Não estamos direcionando estas observações (diretamente) para o escritor mencionado; estamos somente tentando demonstrar a metodologia de trabalho do serviço de inteligência comunista. Por exemplo: durante os anos 60 no Brasil, o serviço de inteligência tchecoslovaco foi responsável pela publicação de textos que defendiam a “revolução cubana”, escritos desde pontos de vista burgueses; nestes textos foi feito um esforço para evitar o uso de uma argumentação comunista ou progressista e, ao mesmo tempo, foram escritos premeditadamente e conscientemente de uma forma que seguia os princípios e padrões de uma argumentação democrática, melhorando assim o resultado. Ao mesmo tempo, eram textos inspirados pelo serviço de inteligência comunista que serviam ao seu próprio interesse.
Estas observações derrubam os argumentos dos defensores do escritor – simplesmente quanto mais a pessoa não “combinava” com a imagem de um agente perigoso, melhor era para ocultar o fato de colaboração com um serviço de inteligência estrangeiro. As pastas do serviço de inteligência de Praga estão repletas de casos onde um agente útil e de valor era alguém que não “combinava” com a imagem conhecida de um agente – pessoas pouco sérias, que abusavam do álcool, falavam demais e, mesmo assim, eram agentes úteis. Também temos casos como este. Não existem motivos para que os soviéticos não pudessem trabalhar com uma pessoa assim, que estivesse distante dos padrões de um bom agente desenhados pela literatura sensacionalista.

Caso alguém queira estudar a tese de que o escritor Josué Guimarães pudesse ser um colaborador da KGB soviética, deve estudar profundamente os seus textos; principalmente aqueles do ano de 1976 e anos próximos. Neles, será possível encontrar pistas da influência de estrangeira. Ali será possível encontrar os sinais de operações ativas da KGB, caso estas tenham sido realizadas. Também deveria ser estudada a sua rede de ligações em (e não somente) Lisboa – pois justamente esta rede poderia ser de valor operacional para Moscou, por causa da possibilidade do acesso à informação. Com quem ele se encontrava, a quem conhecia e a quem tinha acesso. O pesquisador também deve estar atento quanto as condições financeiras do escritor naquela época, se por acaso não houve alguma mudança importante. Os resultados de uma verificação como esta poderiam, no máximo, aumentar a possibilidade de que a tese da revista portuguesa “Expresso” esteja correta.

É fácil acusar alguém de relações com a KGB; principalmente quando esta pessoa já é falecida. Apesar de que neste caso, eu compreenda que o motivo seja importante (assim como foi esclarecido acima), tenho consciência de que não foram apresentadas provas e que a acusação foi feita somente em nível de uma tese, que não é fácil de ser defendida. Por outro lado, caso se queira defender o bom nome de uma pessoa alvo deste tipo de acusação, que seja de uma maneira que faça sentido, apresentando argumentos válidos, e não através de explicações que a deixe em uma situação pior!

Vladimír Petrilák

http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/livros/noticia/2016/07/josue-guimaraes-e-kgb-amigos-e-familiares-negam-envolvimento-de-escritor-com-agencia-sovietica-6548472.html

http://poncheverde.blogspot.com.br/2016/07/escritor-gaucho-josue-guimaraes-era-o.html

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Ano de 1961: os soviéticos, graças a ajuda da StB e da KGB, reataram as relações diplomáticas com o Brasil




Original: https://www.facebook.com/notes/stb-no-brasil/ano-de-1961-os-sovi%C3%A9ticos-gra%C3%A7as-a-ajuda-da-stb-e-da-kgb-reataram-as-rela%C3%A7%C3%B5es-di/615779835247839

Janeiro a maio de 1961 foi o palco da ação em que figuraram como protagonistas o serviço de inteligência da Tchecoslováquia, a StB (em tcheco, Státní bezpečnostní), e sua residentura (base do serviço de inteligência no estrangeiro) no Rio de Janeiro. O objetivo: o reatamento das relações diplomáticas entre o Brasil e a União Soviética.

Essas relações estavam rompidas desde o ano de 1947. Enquanto a Tchecoslováquia as mantinha relativamente normais com o Brasil, os soviéticos atuavam em um campo de ação limitado. A Revolução Cubana atraiu atenção para o potencial da América Latina e, por isso, foram obrigados a concentrar suas atividades no maior país daquela região.

Para os soviéticos, não era suficiente estar no controle total das atividades do serviço de inteligência “tcheca”; eles também desejavam estar presentes legalmente. A tarefa de estabelecer novamente as relações diplomáticas foi confiada a um homem que parecia ser “um predestinado”. Esse homem exerceu influência direta sobre o governo de Cuba, e inclusive tornou-se amigo pessoal de Fidel e Che Guevara. Ele era um oficial da KGB e também teve bons relacionamentos pessoais com o novo (a partir de janeiro de 1961) presidente brasileiro Jânio Quadros, que o conheceu em 1959, quando foi seu guia e tradutor em uma visita que fez a Moscou e Leningrado.

Na oportunidade, Jânio Quadros esteve na URSS como um político de oposição. Esse oficial da KGB, mesmo cumprindo um papel muito importante em Havana, durante a crise no Caribe, foi chamado às pressas a Moscou, onde Nikita Sergeyevich Khrushchev (Secretário Geral do Partido Comunista da URSS) lhe confiou uma importante missão: “Você irá ao Brasil!”. Mas, para que a missão obtivesse sucesso, era necessário “incluir” nela os “tchecos”, pois eles já possuíam, na época, um certo domínio do “terreno” e ainda tinham um contato (trata-se aqui de contato legal) no gabinete presidencial.

Os “tchecos”, então, ajudaram a obter o visto para este que talvez tenha sido o primeiro cidadão soviético a visitar legalmente o Brasil desde o ano de 1947. Além disso, foram apanhá-lo no aeroporto, ajudaram-lhe a se alojar no hotel “Miramar”, no Rio de Janeiro, e inclusive a se vestir (no relatório da base da StB do Rio de Janeiro está escrito que lhe ajudaram a comprar um paletó, outras peças de roupa e uma mala), ajudaram ainda a trocar dinheiro em casa de câmbio etc. Depois lhe compraram uma passagem aérea até Brasília (capital), onde deveria encontrar-se com o Presidente Quadros, que, em 1959, havia lhe garantido pessoalmente que quando precisasse “receberia o visto na hora”.

Bem, não foi o que ocorreu, pois sem a ajuda dos agentes da StB, ele não teria recebido o visto. Os “tchecos” levaram um mês para conseguir o documento. Mesmo depois de o oficial da KGB em questão, com “disfarce” de jornalista, ter chegado ao Brasil, a audiência com o presidente ainda não era certa. Os “tchecos”, graças ao seu contato (contato legal, insista-se) no gabinete presidencial (o chefe do departamento cultural - esse funcionário possuía o codinome de MOGUL e como possuía uma visão católica e conservadora e, além disso, era uma pessoa de ótima situação financeira, não servia para ser recrutado como agente), conseguiram rapidamente que fosse atendido pela “eminência parda” de Jânio Quadros, seu secretário pessoal, o Dr. José Aparecido de Oliveira. Isso porque, por uma questão de má sorte, no dia em que o enviado soviético chegou à capital, o presidente precisou viajar por alguns dias. A data do próximo encontro fora então marcada para o próximo dia 5 de maio de 1961.

Assim, Alexander Ivanovich Alexejev (seu sobrenome verdadeiro era Shitov, em russo cirílico, Шитов Александр Иванович, latino, Alexandr Ivanovich Shitov) após regressar ao Rio para depois decolar novamente para a capital Brasília, encontrou-se com o presidente brasileiro Jânio Quadros. A conversa trouxe o efeito esperado e, ao final daquele ano, as relações entre Brasil e URSS foram restabelecidas oficialmente.




A foto acima é do ano de 1963; visita de Fidel Castro à URSS, o homem de óculos à direita de Fidel Castro é Alexejev

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

World Thought Police - Capítulo 1 - Contexto Histórico

Por favor, avisem-me de qualquer erro de tradução ou de portugûes.

Ver demais capítulos.
Ver pdf completo com as últimas atualizações.

World Thought Police - Capítulo 1 - Contexto Histórico

Press Agency Novosti, ou APN, (Novosti que curiosamente significa notícia em russo) foi fundada em 1961 como uma agência “independente, não governamental”, praticamente como uma organização virgem¹², o quê é, em si, totalmente desprovido de sentido em um país onde tudo, desde os satélites Sputniks¹³ até os banheiros, pertencem ao povo, ou seja, são controlados pelo Estado. Os prospectos da Novosti dizem que a APN “é uma agência de informação das organizações públicas Soviéticas... facilitando de todas as formas a promoção e consolidação de maneira internacional do conhecimento, confiança e amizade, circulando EM TODOS OS LADOS¹⁴ a verdadeira informação sobre a União Soviética e informando os Soviéticos da vida de outros povos...”


Desde o primeiro segundo da sua fundação, a APN foi subordinada, de fato, a dois chefes: Department of Agitation and Propaganda of the Central Committee of the CPSU (Agitprop) ( Departamento de Agitação e Propaganda do Comitê Cental do Partido Comunista da União Soviética) e o Department of Disinformation of the KGB (Departamento de Desinformação da KGB), com o propósito de planejar, coordenar e conduzir medidas ativas¹⁴ contra o público e o governo em países não-Soviéticos (não controlados pela União Soviética e seus vizinhos), principalmente pela imprensa destes países. Os alvos da manipulação da APN-KGB também incluem organizações públicas e políticas, grupos religiosos, sistemas educacionais, a indústria do entretenimento (cinema, TV, companhias de promoção de troca de cultura¹⁵ etc...), assim como indivíduos: políticos, membros do parlamento, burocráticos dos serviços sociais, líderes e ativistas dos sindicatos, empresários, publicitários, intelectuais (professores universitários, escritores, cientistas) - ou seja, todo mundo que tem a capacidade de influenciar outras pessoas, de modelar a opinião pública e policiar as atitudes e as decisões tomadas a nível da nação.

Propaganda do Marxismo-Leninismo (ou as “vantagens” do Socialismo e da economia planejada) e a denuncia do “Decadente Imperialismo Ocidental” são apenas uma pequena parte das atividades da Novosti. Quando da fundação da Novosti, a era pós-Stalin, demandava novos métodos e abordagens. Ataques frontais a ideologia Ocidental se provaram ineficiente e até contra-produtivos, especialmente no Terceiro Mundo: Ásia, África e América Latina. A idade moderna das comunicações obrigaram a uma maneira mais sofisticada de moldar a opinião pública fora da URSS. A sub-versão a curto-prazo de algumas personalidades chaves deveria ser combinada com uma subversão a longo-prazo, porém de maneira mais efetiva e que criasse, de maneira irreversível, uma mudança no processo de percepção da realidade de milhões de votantes em sociedades pluralistas.

Sobre o comando de Yuri Andropov, a nova geração de especialistas das relações públicas da KGB começou a emergir: altamente educados e treinados, graduados nas escolas Soviéticas, falando fluentemente duas ou mais línguas, entendidos de história, literatura, religião, estilo de vida e estrutura política-social dos países alvos.

Esse foi o tempo na nova “linha geral” da CPSU-CC (Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética). Um novo clichê da propaganda foi criada – um “terceiro modo” de desenvolvimento das colônias ocidentais em formação (não-comunistas, porém ainda não capitalistas, porém com certeza “anti-imperialistas”, principalmente num estilo de desenvolvimento anti-americano). A implementação desta politica requeria milhares de profissionais de jornalismo, bem treinados no estilo ocidental de jornalismo e no processamento das informações e na apresentação das opiniões da maneira mais emocional possível, apelando sempre para os instintos mais primitivos do homem: medo (da guerra nuclear e/ou da confrontação com a URSS), autopreservação (você preferiria viver em sociedade “cruel, poluída onde só o lucro interessa” ou em uma sociedade “cientificamente planejada, racional, sem poluição onde a riqueza está totalmente distribuída”) e o amor (das crianças, da família, da paz, dos amigos, dos irmãos de classe e raça e etc...) .

Naquela época os ideólogos e especialistas da CPSU-CC tinham trabalhado numa nova linha de operações da KGB que mais tarde foi chamada de “medidas ativas”. Essas medidas tinham muito pouco a ver com a clássica e romanceada concepção de espionagem da época do Stalin. Fontes confiáveis estimam que a espionagem clássica (estilo James Bond) correspondiam a mais ou menos 15% ou 20% do tempo, do dinheiro e da força de trabalho da KGB. Os 80% restantes eram direcionados a criação de um clima ideológico nos países alvos que permitia que os agentes de influência Soviéticos simplesmente comprassem (ou pegassem) os dados da inteligência local de maneira legítima e aparente.

O real objetivo da nova política de atividade da Novosti não é aprender os segredos do adversário, e nem mesmo ensinar as massas do ocidente o espírito da ideologia do Marxismo-Leninismo, mas sim substituir vagarosamente a sociedade de livre-mercado capitalista, com sua liberdade individual na economia e na esfera politico-social – com uma cópia do sistema “mais progressivo” e eventualmente formar um sistema mundial controlado por uma burocracia benevolente que eles chamam de Socialismo (ou Comunismo, como o estágio supremo deste “progresso”).

Para efetuar esta mudança gradual, é muito mais fácil e bem menos doloroso (e menos perceptível para a população) mudar a percepção da realidade, as atitudes, os padrões de comportamento e criar várias demandas e expectativas, levando assim a aceitação do totalitarismo¹⁶. Assim a imprensa é o principal alvo da manipulação da manipulada-independente-não-governamental organização pública Novosti.

[TRADUÇÃO INTERROMPIDA]

11 Um personagem do romance 1984 que representa a burocracia totalitária que controla totalmente seus cidadãos a ponto de poder vê-los em uma TV, sempre lembrado-os da propaganda estatal “O Big Brother está o vendo”
12 No original: grass'root. Significa algo totalmente não adaptado, modificado.
13 Satélites robôs Soviéticos. O Sputnik 1 foi o primeiro objeto feito pelo homem enviado a órbita terrestre, isso em 1957. Sputnik em russo significa literalmente satélite.
14 Grifo do Tomas.
15 No original:cultural exchange. Aqueles programas onde um pessoa vai morar com uma família em outro país, absorvendo assim a cultura do páis.
16 Quanto a criação de demandas e se aproveitar do caos criado ver: “Cloward-Piven Strategy”

World Thought Police - Traduzido para Portugês





World Thought Police

Tomas Schuman/Yuri Bezmenov

Polícia Mundial dos Pensamentos

Tomas Schuman/Yuri Bezmenov

Introdução
Capítulo 2. Structure and Functions
Capítulo 3. P.R. Men — The Friendly Mind-Benders
Capítulo 4. Novosti cadres
Capítulo 5. Party Line of Novosti
Capítulo 6. Novosti's Connection with the KGB
Capítulo 7. The vicious Circle of Untruth
Capítulo 8. Homemade Propaganda
Capítulo 9. Novosti Space Bluff
Capítulo 10. Human Interest Propaganda
Capítulo 11. Indo-Soviet Friendship: My Cup of Tea
Capítulo 12. Collaborators: Who Are They?
Capítulo 13. Foreign Press Collaborators
Capítulo 14. Services and Pay
Capítulo 15. Overt and Legitimate Operations
Capítulo 16. Covert & Illegitimate Active Measures
Capítulo 17. Pentagon's Gun Fodder or America's Conscience?

PDF Completo com as últimas atualizações:


Ver também:

Entrevista do Tomas em 1983
https://www.youtube.com/watch?v=jFfrWKHB1Gc

Livro Original em inglês
https://archive.org/details/BezmenovWorldThoughtPolice1986