sexta-feira, 28 de abril de 2017

America Under Siege: Soviet Islam

Parte 2 de um documentário mostrando a rede de radicais marxistas que influenciam a política interna nos EUA.



"Soviet Islam" is the second episode in the five-part America Under Siege documentary web-series releasing over the course of 2017. Each episode profiles the influence of radical Marxists on various segments of American society.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Revelando os Agentes

Original:
http://stb.cepol24.pl/pt/revelando-os-agentes

REVELANDO OS AGENTES

Ao publicar informações sobre o trabalho do serviço de inteligência tchecoslovaco no Brasil e na América Latina, logicamente fazemos surgir perguntas sobre concretos colaboradores entre as fileiras de cidadãos brasileiros e de outros países da América do Sul. É óbvio que nenhum serviço de inteligência pode realizar seu complexo trabalho sem as pessoas certas que, no modo de ver da inteligência, ocupam uma posição importante ou útil (para o serviço de inteligência estrangeiro) nas estruturas da sociedade. Isso pode fazer com que os objetivos sejam alcançados e, pode trazer vantagens (às vezes mútuas) para a inteligência estrangeira e para dado colaborador.  E também pode causar danos – para dado país e, sem dúvidas, também para a psique do agente.
O colaborador – um cidadão brasileiro – trabalhava para a StB por diversas razões. A motivação ideológica foi um fenômeno comum. Isso significa que tratava-se de uma pessoa descrita nos documentos da StB como sendo progressista, de convicções esquerdistas (mas atenção: filiados a partido comunistas não eram recrutados) ou nacionalista – era justamente destes ambientes que vinham pessoas com tendências hostis aos EUA e à sua política na América do Sul, e isso já colocava o candidato a colaborar em uma posição de aliado do bloco socialista. Ou seja, essas eram pessoas que concordavam em colaborar com o serviço de inteligência estrangeiro não por dinheiro, mas por um ideal. Logicamente os funcionários tchecoslovacos da inteligência persuadiam essas pessoas de que, caso colaborassem, não prejudicariam o Brasil, mas sim os Estados Unidos e os seus aliados do imperialismo que era o inimigo de todas as pessoas progressistas no mundo. Esses casos representam a maioria das pessoas durante a história dos quase vinte anos da atuação da StB no Brasil.

Recibo no valor de 200 dólares americanos firmado por um agente, no Rio de Janeiro, datado 22 de abril de 1969.

Muitas vezes, acontecia que, com o passar do tempo, o dito entusiasmo ideológico diminuía e o dado agente começava a exigir ( e recebia) pagamentos financeiros por seus serviços. Também aconteciam casos onde realmente a colaboração tinha motivação unicamente ideológica – nesta situação o agente recebia presentes (cigarros americanos, álcool, louça tcheca, discos gramofônicos, etc.) ou outro tipo de benefício, como, por exemplo, viagem e estadia pagas para a Tchecoslováquia ou para outro país do bloco da Europa oriental. Isso não significa que um colaborador como este nunca recebia dinheiro da StB –  pagavam-lhe, por exemplo, os gastos necessários para que mantivesse contatos importantes, graças aos quais adquiria informações: como as despesas para um convite de jantar em um restaurante – ou viajar para algum lugar – geralmente estes gastos eram reembolsados. Certamente, em muitos casos, os agentes identificavam os valores gastos exageradamente,  os oficiais da StB tinham consciência do fato e, mesmo assim, pagavam o valor a maior, pois entendiam que era necessário para poder comprometer ainda mais o agente e chantageá-lo se preciso. Nesses casos, os oficiais da inteligência tchecoslovaca exigiam uma assinatura do colaborador em um recibo, com a declaração de que o dinheiro lhe fora entregue. Primeiro, isso era uma exigência da central para controle dos gastos operacionais de inteligência e, segundo, uma assinatura como essa era um material comprometedor a mais, algo que vincularia o agente a ser leal perante o seu chefe estrangeiro. Também existiam pessoas que trabalharam em prol da StB unicamente por motivos financeiros.


É necessário esclarecer ainda uma questão técnica: cidadãos brasileiros estão relacionados com o trabalho de toda a polícia da StB: eram objeto de interesse tanto do  Departamento I, ou seja, o serviço de inteligência que operava principalmente no exterior, como também do Departamento II, a contraespionagem tchecoslovaca, que por sua vez, ocupava-se dos cidadãos brasileiros que se encontravam na Tchecoslováquia. E por isso que nas páginas de internet do Arquivo dos Serviços de Segurança tcheco, o ABS  ( órgão vinculado ao Instituto de Pesquisas de Regimes Totalitários – ÚSTR ) podemos encontrar muitos nomes, que soam como de brasileiros ou portugueses, com diferentes números de registro. Através do registro em duas fontes básicas de dados disponíveis já é possível ter uma orientação se era o serviço de inteligência no exterior ou a contraespionagem que se interessava pela pessoa. Em outras palavras: se a pessoa foi “trabalhada” (observada, monitorada) no Brasil ou na Tchecoslováquia. Na página da  ABS é possível encontrar dois tipos de registros:
– no Diário de registros (em tcheco: Protokol registrace osobních svazků tajných spolupracovníků);
– no Diário de arquivos (po czesku Archivní protokol svazků spolupracovníků).
Ambos os livros foram conduzidos separadamente para colaboradores secretos, para casos operacionais, bases de objetos de interesse e para correspondências operacionais.


No Diário de registros foram anotados cronologicamente os casos e pessoas que o serviço de inteligência começou a “trabalhar” ou teve um interesse em geral por eles. Isso significa que o nome de uma pessoa pode existir em alguns livros; vamos demonstrar isso através de um exemplo. A StB “trabalhou”, entre outros, o ambiente jornalístico brasileiro. Ou seja, o  serviço de inteligência se interessou por determinadas redações de jornais e por pessoas que nelas trabalhavam. Um destes objetos de interesse foi por exemplo, o jornal “Última Hora”. Como um jornal é formado por pessoas, a StB também teve que se interessar por pessoas concretas ligadas a este jornal. Este tipo de verificação era anotado na pasta de objetos dedicada ao ambiente jornalístico, a saber na subpasta do objeto “ambiente jornalístico”. Então esta pessoa, como um tipo – figurante –, ou seja, alguém por quem a StB estava interessada, possuía a sua subpasta na pasta de objeto. Aqui então não se tratava de um agente, mas somente de uma pessoa que era por algum motivo, relevante ou interessante para a StB. Caso fosse possível “trabalhar” esta pessoa a tal ponto para que pudesse ser recrutada e adquirida como agente, era aberta uma nova pasta: desta vez, uma pasta pessoal de agente. Ou seja, a pasta do agente. Este fato era novamente anotado no Diário de registros. Os Diários de arquivo, por sua vez, serviam para anotar o fato do envio da pasta para o arquivo. Isso significa, que o caso relacionado com o objeto de interesse, pessoa ou correspondência, etc… foi encerrado. Os motivos eram diversos: o agente faleceu, recusou-se a colaborar, houve uma de desconspiração (foi descoberto), o serviço de inteligência deixou de se interessar por algo ou por alguém, etc. Em um caso como este, era encerrado e a documentação com ele relacionado era arquivada e isso ficava anotado no Diário apropriado. Sendo assim, dado nome ou dado caso, anotado nos Diários de registro, deixavam a sua marca, desta vez, nos Diários de arquivo. Aconteciam casos em que, após alguns anos de arquivamento, a pasta “revivia” e era posta novamente em circulação, surgindo assim uma nova anotação no Diário de registros.  É por isso que existe a possibilidade de um nome aparecer varias vezes durante uma busca na página de internet do ABS.

Capa de um Diário de registro de agentes.

Durante a existência da StB (1945- 1989/1990), o sistema de registros passou por mudanças, mas para nós o importante é que o serviço de inteligência, ou seja, o Departamento I (1. správa MV), registrou os seus colaboradores – agentes com números de registro com 5 dígitos que iniciavam com o número 4. Ou seja, começando a partir do número 40001, neste sistema eram registrados os agentes tchecos e estrangeiros, que trabalhavam em prol do serviço de inteligência no exterior. Então, caso exista, ao lado de um nome, o número de registro  40001 em diante e como órgão que direcionou o registro ao Diário conste: 1. Správa SNB ou 1. Správa MV ou 1. Správa FMV (SNB para Forças de Segurança Nacional,  MV para Ministério do Interior, e, a partir do ano de 1968, FMV para Ministério Federal do Interior), significa que, sem dúvidas, estamos lidando com um colaborador secreto e consciente do serviço de inteligência tchecoslovaco. Pois era assim que esta pessoa era avaliada pela StB, já que registrar alguém na lista de agentes exigia a confirmação do chefe da inteligência: por regra, era o Ministro do Interior.
Informamos ainda que, quanto aos agentes tchecos, geralmente funcionava uma prática, ao se iniciar a colaboração com a StB era confirmado através da assinatura do agente em uma declaração de colaboração ou juramento de manter o seu sigilo (ocultar o fato de contato com a StB); por outro lado, no que diz respeito a cidadãos estrangeiros este compromisso formal por escrito não era exigido. Neste caso, a StB atuava conforme as diretrizes nas quais estava escrito que a assinatura de estrangeiros não era exigida.
            Sendo assim, quando encontramos na página de internet do ABS, em qualquer diário, o nome de uma pessoa junto a um número de cinco algarismos, começando pelo número quatro e quando o órgão junto ao nome ou ao codinome for  1. správa, podemos ter certeza de que, na avaliação da StB, tratava-se de um colaborador secreto do serviço de inteligência, de um agente ou de um contato confidencial.
Para que fique mais claro é bom ainda descrever o significado de outros números de registro usados pelo serviço de inteligência. Os números de cinco algarismos usados pela inteligência que comecem com o número Um significavam uma pasta conduzida para um objeto (ou seja, direcionada para um ambiente da sociedade). Tratavam-se de objetos como: parlamento, gabinete presidencial, políticos, Ministério de relações exteriores, jornalistas, empresas, forças armadas, polícia, movimentos sociais (por ex. Ligas Camponesas), etc… O número Dois também estava relacionado com pastas de objetos. Três estava relacionado com números de pastas pessoais de funcionários de carreira: ou seja, oficiais do serviço de inteligência. As pastas eram abertas para aqueles oficiais que eram enviados para postos no exterior, principalmente diplomáticos. Quatro: já tratamos acima. Cinco e Seis também eram pastas pessoais. Estes números desapareceram durante a última reforma do sistema de registros em 1988. Sete era o início dos números de registro destinados a moradias conspiradas. Oito, pastas de correspondência operacional – geralmente correspondências entre a central e a rezidentura. O número Nove, por sua vez, estava destinado a operações ativas e operações de influência. As pastas Nove foram as que menos se conservaram no arquivo. As pastas que eram divididas em várias partes também tinham as suas regras, mas agora não iremos nos ocupar destes detalhes.
É ainda necessário informar que, algumas vezes,  uma pessoa com o status de figurante (em tcheco: typ), ou seja, uma pessoa que estivesse sendo “trabalhada” pela inteligência, mas que ainda não era um colaborador secreto, muitas vezes era descrita nas avaliações dos órgãos que a conduziam da seguinte maneira: “trabalha como um agente, mesmo que (ainda) não o é”. Isso significa que, entre esses figurantes ou os contatos (em tcheco: styk), haviam muitas pessoas das quais os “amigos” da Tchecoslováquia se aproveitavam, delas adquirindo informações ou com elas realizando ações, o que permitiu aos oficiais da inteligência classifica-las como “contatos muito eficientes e, que, praticamente, já trabalhavam como agentes”. Muitas vezes, por diferentes motivos, o “trabalho” (ou seja, o recrutamento e a classificação de figurante para agente) não chegou a ser finalizado. Os motivos eram diversos: o figurante podia dar-se conta sobre a natureza que o contato estava adquirindo, podia se assustar ou entender que não poderia seguir adiante. Também podia adoecer, perder sua função ou emprego e desta maneira tornar-se inútil para o serviço de inteligência do país estrangeiro, poderia dizer a alguém a respeito da sua relação com um diplomata tcheco e, desta maneira, delatar o oficial da inteligência. Como podemos ver, motivos não faltavam e, agora, também é possível compreender por que os oficiais do serviço de inteligência, sob a cobertura diplomática, se esforçavam para ter o máximo possível de conhecidos e, assim, possuir uma larga base de pessoas para poderem encontrar verdadeiras pérolas: bons informantes, colaboradores e, finalmente, agentes.
Devemos entretanto lembrar que inclusive a aquisição de um agente não resolvia o problema. Pois um incrível jogo intrincado prosseguia adiante; onde as condições políticas, o ambiente dos agentes e todas as circunstâncias da colaboração mudavam com o passar do tempo. Tudo isso tinha influência sobre as condições psicológicas do colaborador. Além disso, o oficial condutor também podia cometer erros. Tudo isso interferia na qualidade da colaboração, sobre a importância do agente. Em outras palavras: é impossível avaliar igualmente a escala de colaboração de todos os agentes, colocá-los todos em um mesmo balaio. Inclusive nem a própria StB o fazia, frisando em suas avaliações que o agente XY era o melhor agente ou que o agente AB trazia mais riscos que vantagens e, é necessário pensar sobre a colaboração com ele ou limitar a mesma ou inclusive desistir deste. Todas estas circunstâncias devem ser levadas em conta e descritas detalhadamente em nossas pesquisas. Então, por um lado temos o fato indiscutível de que, na avaliação da StB, alguém tornou-se um colaborador, mas por outro lado temos a forma concreta desta colaboração. Tudo isso sobre o que estamos aqui falando é uma descrição do ponto de vista do serviço de inteligência de Praga: este, após a aprovação do Ministro, inscrevia alguém na lista de agentes e passava a conduzir a sua pasta de agente, na qual anotava todos os aspectos do trabalho em prol do serviço de inteligência tchecoslovaco. Em outros textos nossos, escrevemos que as pastas do serviço de inteligência tchecoslovaco podem ser tratadas como uma fonte confiável. Os fatos nelas descritos aconteceram e as pessoas nelas mencionadas existiram; estamos verificando tudo isso de várias maneiras. Nas pastas existem vários documentos em português. Tratam-se ou de materiais fornecidos pelos próprios agentes ou de relatórios por eles escritos. Também existem assinaturas em recibos de recebimento  de dinheiro por serviços prestados à StB.
Esse  fato, juntamente com as pesquisas do contexto dos casos, aumentam a probabilidade da veracidade do conteúdo das pastas. Mas sempre é preciso levar em conta a margem de erro. É preciso chegar a testemunhas dos acontecimentos descritos que ainda estejam vivas.


Em todos os países pos-comunistas as chamadas listas ( listas de colaboradores da polícia secreta) causam grande comoção. Espero que a leitura das observações acima descritas tenha nos demonstrado que qualquer lista pode ser tratada somente como uma ferramenta de apoio e revela que dado serviço de inteligência se interessou por alguém, mas não revela a natureza deste interesse. Pois a polícia secreta observava tanto aos inimigos do regime comunista (para tornar-se um inimigo como este, bastava ler literatura proibida) como aos seus próprios colaboradores. É a rozvědka, palavra tcheca para inteligência, ou seja, o serviço de inteligência, o qual era parte desta polícia secreta, e que tinha como escopo (entrando na etimologia da palavra, em tcheco: roz / vědka) o VĚDĚT, o saber. Saber o máximo possível sobre o país observado, por isso reunia informações usando para isso todo o seu aparelho, rede de contatos, inclusive legais, que tinha a disposição.  Ou seja, não usava somente os seus colaboradores secretos e não somente meios ilegais. Para a realização de ações de influência, ao lado de métodos ilegais, também eram usados aqueles que eram legais. Com este objetivo, era adquirido e reunido o conhecimento relacionado com um largo círculo de pessoas e objetos; nem todos eram agentes ou colaboradores conscientes. No que diz respeito a nossas pesquisas, nem todos os nomes que se encontram nos Diários de registro e Diários de arquivo da StB tchecoslovaca são nomes de agentes.
Outra questão importante: é preciso afirmar que muitos nomes interessantes não aparecem nas “listas”, ou seja, não encontram-se nos Diários de registro e de arquivo, mas os encontramos em diferentes documentos. São nomes de pessoas que não tornaram-se agentes e inclusive não foram “trabalhados” com mais profundidade, o que não significa que não possam ter tido algum papel (às vezes até importante) em operações da StB, no Brasil ou em outro lugar do mundo. Às vezes, este papel era somente um episódio, às vezes alguma forma de colaboração se estendia por mais tempo. Também acontecia de que novas circunstâncias que surgiam, impediam a possibilidade de aproveitamento da ajuda de determinada pessoa. Este é o caso de um certo jornalista brasileiro (Rui Rocha), que, no ano de 1965, possa, de uma forma inconsciente, ter ajudado em uma operação ativa. Mas aconteceu que seu irmão era estudante na Tchecoslováquia e a StB concluiu que este era um fator de risco, pois esta circunstância colocava automaticamente o jornalista em uma posição desvantajosa no Brasil da época, por isso, temporariamente, desistiu deste contato. Mas a StB reuniu informações sobre este jornalista e, o que é interessante, encontramos documentos nos quais estas informações reunidas foram descritas como “entrega de conhecimento aos amigos soviéticos”. De acordo com o título do documento elaborado no dia 8 de agosto de 1966, resulta claramente que o conhecimento sobre Rui Rocha foi entregue ao conselheiro da KGB junto à StB em Praga. É possível então afirmar que a KGB se interessava por essa pessoa, mas não sabemos com que objetivo.
Casos como este descrito acima vêm à tona somente através do estudo do conteúdo das pastas. Aqui surge uma pergunta importante sobre como encontrar pastas interessantes como esta, como chegar até elas? O buscador da página de internet do ABS possibilita a busca segundo nome, sobrenome, codinome, data de nascimento e, em primeiro lugar, segundo a unidade que fez o registro, número de registro e número de arquivo. As pastas de objetos relacionadas com o Brasil, podem ser encontradas ao escrever na rubrica de codinome (krycí jméno) ou de sobrenome (příjmení) a palavra Brazílie ou Rio de Janeiro ou outra que sugira relação com este país. A situação é facilitada através do conhecimento do número de registro; neste caso a busca resulta em quase cem por cento de acerto: trata-se de que, inevitavelmente, por causa do longo tempo em que funcionou a StB, os números podem se repetir e podem estar relacionados com diferentes pessoas. Nesta situação é preciso possuir um conhecimento, o qual com base a todas as anotações existentes nos Diários, nos permita especificar se dado número possui relação com o serviço de inteligência no exterior e com a sua secção americana; às vezes, o codinome da pessoa que ordenou a inscrição pode servir de ajuda para uma identificação exata; caso esta pessoa seja algum dos oficiais da secção sobre o serviço de inteligência americano, então podemos estar certos de que o colaborador inscrito operava em território da América Latina. Este conhecimento vem sendo adquirido por nós gradativamente e resulta da leitura das pastas e da literatura disponível sobre o assunto, assim como de consultas com historiadores e pesquisadores tchecos. O método mais lógico, mas ao mesmo tempo o mais trabalhoso, é escrever nomes concretos no buscador interno da página de internet do ABS. Só que este método é para pessoas pacientes e resistentes. Porém, é preciso dizer que foi justamente desta maneira que o pesquisador Mauro “Abranches” iniciou nossas pesquisas. O trabalho de um pesquisador é muitas vezes entediante e carente de grandes emoções: aquelas relacionadas com alguma descoberta espetacular aparecem somente depois de algum tempo; esse é o prêmio pelos esforços realizados.
É preciso ainda superar outro paradigma – publicar ou não publicar os nomes de agentes – este é o ponto mais sensível.  Por um lado, a prática das pesquisas na Europa central é de que os historiadores e pesquisadores, ao publicarem os resultados de seu trabalho, automaticamente publicam todos os nomes e dados pessoais de agentes e colaboradores da StB. Isso inicialmente causou uma certa comoção, mas com o tempo, começou a ser tratado como algo lógico: trata-se pois de mostrar completamente a verdade, de mostrar como funcionava o regime totalitário criminoso. Aqui é sempre necessário levar em conta mais uma circunstância: os agentes da polícia secreta tornavam-se colaboradores como consequência de chantagens ou outros métodos usados pelos órgãos de repressão, ou seja, pelos oficiais da polícia secreta. Estes, aproveitando-se de seu poder praticamente ilimitado, obrigavam as pessoas a colaborar, quebrando a sua resistência. Simplesmente transformavam pessoas normais em trapos morais.  Nesse contexto, é possível aceitar o ponto de vista de que o agente foi a vítima de um torturador, logo, o oficial da policia secreta é mais merecedor de sofrer condenação do que o seu colaborador. Esse cenário era mais comum dentro das fronteiras Tchecoslováquia, ou seja, com a atuação do Departamento II – contra inteligência. Os funcionários da inteligência que trabalhavam no exterior, por outro lado, não tinham à sua disposição o aparelho de repressão através do qual seus colegas em Praga poderiam se utilizar para mais facilmente obrigar as suas “vítimas” a colaborar. O trabalho dos funcionários no exterior era bem mais complexo, por causa das condições existentes em dado país, onde executavam as suas tarefas operacionais. Em outras palavras, simplificando: era necessário persuadir cidadãos de um país para que ajudassem um outro país estrangeiro, socialista (que fazia parte do bloco comunista). Do ponto de vista legal, os oficiais e colaboradores da StB eram infratores da lei (principalmente da legislação sobre segurança nacional) e as pessoas que decidiram colaborar com o serviço de inteligência estrangeiro foram simplesmente traidores de seu próprio pais. Nós não somos juízes, somente descrevemos o conteúdo de pastas de um serviço de inteligência estrangeiro, ou seja, apresentamos aquilo que este serviço reuniu e escreveu sobre diferentes pessoas, acontecimentos e instituições. Sendo assim, descrevemos o ponto de vista do serviço de inteligência de um país comunista que operava no Brasil. Para que a descrição seja completa, dever-se-ia também citar os nomes de pessoas concretas; todas, sem exceção, que tenham cumprido seu papel nesta história. Mas, antes de que façamos isso, devem ser levadas em consideração algumas questões importantes:
1) no Brasil esse será um acontecimento inédito, pois (até onde sabemos) ninguém nunca revelou nenhuma lista ou nomes de agentes de um serviço de inteligência estrangeiro;
2) não pretendemos fazer o papel de juiz de ações de outras pessoas;
3) para que seja possível, de modo responsável, citar o nome de alguém num contexto como este, é necessário um formato mais extenso que possibilite a apresentação de toda a questão, para que o leitor possa sozinho criar uma opinião e avaliar o grau de colaboração e comprometimento de dada pessoa que tenha o seu nome revelado e para que, também, tenha a oportunidade de conhecer (como já dito) a versão da pessoa citada com o caso. Pelo menos daquelas pessoas que ainda estão vivas.
Os leitores estão cada vez mais nos perguntando sobre pessoas concretas que são encontradas na página de internet do ABS. A resposta à pergunta se alguém foi agente da StB, considerando tudo aquilo que aqui foi descrito, pode ser: sim, esta ou aquela pessoa foi registrada pelo serviço de inteligência tchecoslovaco como colaborador. Entretanto, nesta resposta temos somente a simples informação de que alguém registrou outro alguém. O que isso significa, que consequências isso teve, qual foi o grau de colaboração, etc. – tudo isso deve ser pesquisado e descrito largamente. É isso que estamos tentando fazer. Qualquer material histórico deve ser tratado com modéstia e criticidade. Devemos sempre levar em consideração que as histórias descritas nas pastas da StB são histórias de pessoas reais e essas nem sempre são um simples preto no branco.

Vladimír Petrilák



domingo, 26 de fevereiro de 2017

Terrorismo Cubano


https://www.facebook.com/brasilstb/videos/658163654342790/

TERRORISMO CUBANO

A 'Dirección General de Inteligencia', o DGI, é o serviço de inteligência cubano. Foi criado e organizado sob a orientação dos oficiais da inteligência tchecoeslovaca, a StB, logo após a Revolução Cubana de 1959. O DGI foi o responsável por treinar vários militantes marxistas em luta armada e atividades de terrorismo em todo o continente americano.
Neste vídeo, de 1982, você assistirá a depoimentos de ex-agentes do serviço de inteligência cubano e de militantes marxistas treinados pelo DGI para agir em território americano. Assim como no Brasil, no mesmo período da década de 60 os EUA sofreram massivos ataques terroristas de grupos radicais de esquerda. Um dos revolucionários terroristas, Phillip Abbot Luce, revela encontros que teve com Fidel Castro em Cuba e a entrega de dinheiro vivo para militantes americanos, mesmo dentro dos EUA, no prédio da Missão Permanente Cubana para as Nações Unidas, em Nova York.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

A Esquerda e o Crime Organizado - por Geyson Santos

Original:
https://geysonsantoshotmailcom.jusbrasil.com.br/artigos/219848538/a-esquerda-e-o-crime-organizado

"A posteridade poderá saber, que não deixamos, pelo silêncio negligente, que as coisas se passassem como num sonho"

(Richard Hooker - alguém que não se calou)

Faz algum tempo, um de meus interlocutores disse algo que, tanto pareceu-me inverossímil como insólito: "a esquerda deste país é responsável pela escalada acachapante da criminalidade". De pronto, refutei a ideia, imaginando ser simplista demais; outros fatores deveriam ser analisados.

Pois bem, entretanto, tenho por princípio jamais descartar uma ideia, por mais estranha que seja, antes de gastar algum tempo a analisá-la. Assim, por algumas semanas fiquei às voltas com isso. Por que alguém com razoável instrução diria uma coisa destas? Parecia-me extremismo político.

Não me lembro ao certo como, mas ao pensar sobre o assunto, num "flash", vieram-me à mente as palavras "Ilha Grande". Então, lembrei de duas obras as quais havia "devorado" com muito entusiasmo, há muito tempo, e que nem lembrava mais: "Comando Vermelho - A História Secreta do Crime Organizado" e "CV PCC - A Irmandade do Crime", ambas escritos por Carlos Amorim, vencedor do Prêmio Jabuti com a primeira delas.

Nesse artigo gostaria de prosseguir o assunto que comecei em dezembro do ano passado, mas que faltava-me inspiração para continuar. Durante todos esses meses estive lendo e relendo, pensando e tentando chegar a conclusões sobre o tema.

Desde já, gostaria de expor minhas fontes. Partindo das fontes já elencadas acima, também li o mais importante livro escrito por um criminoso no Brasil: "Quatrocentos contra Um", no qual William da Silva Lima, mais conhecido como "o professor", conta como ele e seus pares fundaram a mais importante facção criminosa brasileira de todos os tempos, o Comando Vermelho. Essas foram minhas fontes primárias (cito-as, porquê, não arrogo-me o senhorio da verdade; cada um de vocês poderá lê-las e chegar às suas próprias conclusões). Como fontes secundárias, procurei reportagens, artigos e tudo que no Brasil tivesse sido escrito sobre o tema; não há muito escrito sobre assunto, contudo, ajudaram a reforçar as conclusões que eu mesmo havia chegado.

Como de regra, gostaria de propor minhas premissas, que serão baseadas nas palavras do supracitado jornalista e, do mais proeminente líder e, também fundador, do Comando Vermelho:


"O governo militar tentou despolitizar as ações armadas da esquerda tratando-as como 'simples banditismo comum', o que permitia também uma boa argumentação para enfrentar as pressões internacionais em prol da anistia e contra denúncias de tortura. Nivelando o militante e o bandido, o sistema cometeu um grave erro. O encontro dos integrantes das organizações revolucionárias com o criminoso comum rendeu um fruto perigoso: O Comando Vermelho. (Carlos Amorim - Comando Vermelho, a História Secreta do Crime Organizado);


"(...) Quando os presos políticos se beneficiaram da anistia que marcou o fim do Estado Novo, deixaram nas cadeias presos comuns politizados, questionadores das causas da delinquência e conhecedores dos ideais do socialismo. Essas pessoas, por sua vez, de alguma forma permaneceram estudando e passando suas informações adiante. Sua influência não foi desprezível. Na década de 1960 ainda se encontravam presos assim, que passavam de mão em mão, entre si, artigos e livros que falavam de revolução. (...) O entrosamento já era grande e 1968, batia às portas. Repercutiam fortemente na prisão os movimentos de massa contra a ditadura, e chegavam notícias da preparação da luta armada. Agora, Che Guevara e Regis Debray eram lidos. Não tardaram contatos com esses grupos guerrilheiros em vias de criação."(William da Silva Lima - Quatrocentos contra Um).


" (...) Nessa época, trinta presos políticos ainda estavam na Galeria LSN. Entre eles, alguns que seriam muito importantes no trabalho de conscientização. Padre Alípio é um dos mais importantes elos de ligação entre os militantes e a massa carcerária...

A respeito da experiência deste revolucionário na Ilha Grande, o repórter Aroldo Machado ouviu o preso Osvaldo da Silva Calil, o Vadinho, assaltante de banco. A entrevista foi publicada na edição de 22 de outubro de 1981 na revista Isto É. Um trecho é esclarecedor:

"- Fiquei com os marinheiros presos em 64. Depois, com os rapazes da ALN, MR-8, VAR-Palmares, Colina (Comando de Libertação Nacional), Juventude Operária e Universitária[ambos ligados aos setores radicalizados da Igreja]. No começo estranhei um pouco. Mas, com o passar dos anos, eles fizeram a minha cabeça, e cheguei até a ler a Bíblia."

Quando os presos políticos foram sendo transferidos ou libertados, a experiencia ficou. Vadinho conta mais:

- Os alunos passaram a professores. Convencemos os presos de que eles tinham que estudar e se organizar. Foi assim que tudo começou."(Comado Vermelho - A História Secreta do Crime Organizado)


"João Marcelo Araújo Júnior conta mais:

- Foi a partir dai que começou esse fenômeno, que mais tarde iria desembocar no Comando Vermelho. A Ilha Grande era um estabelecimento disciplinar uma prisão de castigo. Só tinha barra-pesada.

Os presos políticos levaram para lá sua organização, logo fortalecida com a chegada de outros condenados pela Lei de Segurança Nacional (...) O preso ideológico não se contenta com a prisão. Ao contrário, ele cresce. Na Ilha Grande, ocorreu um fenômeno ideológico por contaminação. Acabou gerando o Comando Vermelho, que perdeu a formação política original, nobre como movimento de libertação nacional, mas que absorveu a estrutura para se organizar como crime comum. Os bandidos adotaram o princípio da organização para verticalizar o poder dentro do grupo"(Comando Vermelho - A História Secreta do Crime Organizado).

Há muitas, muitas outras citações, mas o tempo e, o meio a que me fiei neste, não me permitem fazê-lo. Prossigo:

Neste ponto - depois de ler duas obras sobre o assunto, e estar a analisar a terceira já não me sobrava dúvidas de que o contato entre militantes da esquerda revolucionária e os presos comuns, no Presídio de Ilha Grande, mais conhecido como o" Caldeirão do Diabo ", havia criado um dos maiores vultos criminosos que nosso país já conheceu: o Comando Vermelho.

Ficou claro que os criminosos comuns, por meio de integrantes das esquerdas revolucionárias, tiveram acessos a livros, que foram contrabandeados para dentro dos presídios (naquela época proibidos pela ditadura militar); aprenderam além da ideologia da luta de classes, a organização do tipo guerrilheira revolucionária; técnicas da guerra de guerrilhas (que mais tarde utilizariam nos mais espetaculares assaltos a bancos da década de 80) e; os princípios que usariam para fundar e estruturar o Comando Vermelho.

Mas restava uma dúvida que me era premente ser resolvida: será que essa influência, profunda, que a esquerda exerceu sobre os criminosos comuns, não havia sido involuntária. Fruto de mera fatalidade induzida pelas circunstâncias.

Essa foi a parte mais árdua e, mais angustiante de minhas investigações e considerações. Por ser um pesquisador independente, movido pelo amor a verdade, não disponho de nenhuma forma de patrocínio; portanto, grandes são minhas limitações; não podendo ir a lugares entrevistar pessoas ou ter acesso a documentos que julgava necessários a elucidação desta, que me era, a mais inquietante questão a ser elucidada.

Passo a expor minhas razões, o porquê de minha angústia. O autor do livro" Comando Vermelho ", Carlos Amorim opina:


"Os revolucionários nunca pretenderam ensinar criminosos a fazer guerrilhas. Em mais de uma década de pesquisas, nunca encontrei o menor indício de que houvesse uma intenção - menos ainda uma estratégia - para envolver o crime na luta de classes"

Essa afirmação me fez parar, tinha de levá-la em consideração, uma vez que ela me pareceu extremamente contraditória, porque, se por um lado Carlos Amorim opinou desta maneira, tanto ele, como William da Silva, demonstram que os criminosos comuns foram ensinados (por nove anos) pela esquerda revolucionária com relação à luta de classes e, até mesmo, com relação à luta armada de guerrilhas. Isso me inquietou. Como é possível uma pessoa ensinar outra" sem que houvesse uma intenção ", ou até mesmo, sem que se previsse as consequências de seus ensinos.

Uso minha experiência universitária para demonstrar a contradição. Meus professores, ao lecionarem Direito, o fizeram deliberadamente e, sabiam quais as possíveis consequências que seus ensinamentos produziriam; ou seja, surgirem" operadores "do Direito como, por exemplo, advogados, juízes, promotores de justiça e etc. Assim como quando um pai ensina seu filho a ser honesto, ele o faz deliberadamente, aspirando que seu ensino surta efeito na vida de seu filho; que por sua vez, ao crescer, se torne um homem honesto.

Outro fator que deve ser notado é que, estavam ensinado guerrilhas para homens que tinham sido condenados pelos mais graves crimes; à época, o presídio de Ilha Grande era, como consideraríamos hoje, um presídio de" segurança máxima ", para onde eram enviados os mais perigosos criminosos de então. Não é a toa que ficou conhecido como" Caldeirão do Diabo. "

Assim, ao ensinar indivíduos da mais alta periculosidade a, por exemplo, fazer bombas, no mínimo que se pode admitir, é que seu" professor "assumiu o risco de produzir o resultado. No Direito chamamos isso de dolo eventual.

Mesmo que se possa argumentar que os revolucionários queriam transformar os presos comuns também em revolucionários; ainda sim, o risco que assumiram foi muitíssimo grande; risco de esses criminosos usarem do que aprenderam para, simplesmente, cometerem crimes ainda mais violentos. Foi o que deu.

Dessarte, ninguém coagiu os revolucionários a ensinarem o que ensinaram aos presos comuns. Então como era possível que Carlos Amorim falasse que, ao ensinarem o que ensinaram, os revolucionários esquerdistas não tivessem nenhuma intenção de envolver os presos comuns na luta armada. Carlos Amorim chega ao ponto de dizer que havia um" trabalho de conscientização ". Como é possível se fazer um trabalho de conscientização sem que se tenha a intenção de que a pessoa conscientizada mude sua maneira de pensar e agir, ou seja, de produzir um resultado na vida do conscientizado. Com certeza há uma contradição aqui. Digamos que se promova uma campanha de conscientização" lixo no lixo "; por óbvio, que tanto seus idealizadores, como seus agentes, tem a intenção que as pessoas atingidas pela campanha parem de jogar lixo em vias públicas e comecem a jogar lixo em lugares próprios para isso. Todo trabalho de conscientização tem uma intenção. Toda ação humana que não decorre do fortuito ou força maior é direcionada a um objetivo. Isso é o lógico. Então, como poderia não haver uma intenção. Perdi a conta de quantas vezes pensei nisso.

Teria de continuar minhas pesquisas para além da pessoa do autor desta obra fantástica.

Neste ponto, mais uma vez, e a contragosto, tive de" mergulhar "no pensamento revolucionário; procurando conhecer, por meio de livros de seus mais proeminentes ideólogos, o que eles pensavam sobre o banditismo. Encontrei algumas coisas interessantes. Outras, para meu desgosto, sinto que jamais saberei ou, pelo menos, vou demorar muito tempo até chegar à alguma conclusão.

Durante esse tempo que tenho estudado socialismo, percebi que, como forma de pensamento, ele não é estático e, muito menos, uniforme. Há como que um desenvolvimento (se é que essa palavra pode ser usada), uma amálgama, uma constante mudança, " mutatis mutandis ", um quê de camaleônico, a ponto de, por sua amplitude, se tornar quase que inabarcável. Nessa questão do banditismo vim a perceber que, mais uma vez, isso ocorria. Para Karl Marx, os criminosos (lupemproletariado) estavam descartados do processo revolucionário, caberia somente ao proletário a missão subversiva.


" O lumpemproletariado, esse produto passivo da putrefação das camadas mais baixas da velha sociedade pode, às vezes, ser arrastado ao movimento por uma revolução proletária; todavia, suas condições de vida o predispõem mais a vender-se à reação para servir às suas manobras. "(O Manifesto Comunista)


"Sob o pretexto de criar uma sociedade de beneficência, organizou-se o lumpemproletariadode Paris em seções secretas, cada uma delas dirigida por um agente bonapartista, ficando um general bonapartista na chefia de todas elas. Junto a roués [libertinos] arruinados, com duvidosos meios de vida e de duvidosa procedência, junto a descendentes degenerados e aventureiros da burguesia, vagabundos, licenciados de tropa, ex-presidiários, fugitivos da prisão, escroques, saltimbancos, delinquentes, batedores de carteira e pequenos ladrões, jogadores, alcaguetes, donos de bordéis, carregadores, escrevinhadores, tocadores de realejo, trapeiros, afiadores, caldeireiros, mendigos - em uma palavra, toda essa massa informe, difusa e errante que os franceses chamam la bohème: com esses elementos, tão afins a ele, formou Bonaparte a soleira da Sociedade 10 de dezembro.(18º Brumário)

A concepção que Marx tinha do Lumpemproletariado era bastante pejorativa. Suas esperanças recaíam completamente no proletariado industrial.

Contudo, para a decepção do ideal socialista, a história demonstrou que em uma estrutura capitalista a classe proletária (a qual consideravam ser de natureza revolucionária) dispunha de maior qualidade de vida e, acabava por se amoldar às essas estruturas econômicas, a ponto de não querer revolução alguma. Essas não são minhas conclusões, o economista Ludwig Von Mises demonstra isso brilhantemente, exposição esta que jamais foi refutada.

Isso também foi observado pelos próprios pensadores socialistas, a ponto, de sentirem-se obrigados a repensar sobre à quem, qual classe, estava dirigido o ideal revolucionário; procurando uma nova classe que satisfizesse seus ideais subversivos.

Nas palavras de Bakunin:


"Para mim, (…) a flor do proletariado não significa, como querem os marxistas, a camada superior, a mais civilizada e a mais confortavelmente estabelecida do mundo operário, essa camada de trabalhadores semiburgueses que é precisamente a classe da qual eles querem utilizar-se para constituir a sua quarta classe governamental, e que é realmente capaz de formar uma se as coisas não se endireitarem a serviço dos interesses da grande massa do proletariado; pois, com o seu relativo conforto e a sua posição semiburguesa, essa camada superior dos trabalhadores tem sido muito penetrada por todos os preconceitos políticos e sociais e por todas as estreitas aspirações e ambições da burguesia. Pode-se verdadeiramente dizer que essa camada é a menos socialista e a mais individualista de todo o proletariado."

Nesse ponto da pesquisa me deparei com Mikhail Bakunin e Herbert Marcuse, bem como a concepção que tinham, diferentemente de Marx, do lupemproletariado:


Por flor do proletariado eu entendo aquela eterna “carne” para os governos, aquela grande escória do povo comumente designada pelos senhores Marx e Engels pela expressão ao mesmo tempo pitoresca e pejorativa “Lumpenproletariat”, a canalha, a malta que, estando quase não poluída pela civilização burguesa, traz no seu coração, nas suas aspirações, em todas as necessidades e misérias da sua posição coletiva, todos os germes do Socialismo futuro, sendo apenas ela, atualmente, suficientemente forte para inaugurar e para fazer triunfar a Revolução Social. (BAKUNIN, 2010, sem números de página, grifos na versão em inglês)


“Só a partir da associação entre marginais e estudantes se chegará à revolução. Creia, meu bom amigo, sem a decisiva participação da ‘canaille’ não teria havido a queda da Bastilha nem a revolução de fevereiro de 1848, em Paris, com seus milhares de manifestantes incendiando as ruas, num quebra-quebra que terminou por forçar Luís Filipe à abdicação do trono”. (Carta de Mikhail Bakunin a Alexander Herzen - 1866).

Aqui vale citar Herbert Marcuse em seu "Homem Unidimensional", para o qual o lupemproletariado é, por natureza, a classe revolucionária. Devendo ser utilizada para tal fim.

Entenda a problemática: eu queria saber se houve, ou não, intenção por parte da esquerda revolucionária em envolver criminosos na luta armada. Pois bem, a opinião de Carlos Amorim era em sentido negativo, contudo contraditória. Fui à ideologia revolucionária que, a princípio, por meio de Marx, pareceu confirmar a tese de que os revolucionários não queriam incluir bandidos em sua luta de classes. Foi aí que as coisas começaram a mudar: primeiro por meio de Bakunin que demonstrou ser indispensável a participação destes como meio de enfraquecer o poder existente estabelecido; depois por meio de Marcuse que, pós-decepção com o proletariado, eleva o lumpemproletariado à verdadeira classe revolucionária. Até aqui, tudo me parecia equilibrado, podia ser que sim como, podia ser que não.

Foi então que o cenário começou a mudar... Aqui as coisas começam a ficar interessantes. Além de todo o dito acima, houve um ponto, que no decorrer de minha pesquisa, muito me chamou a atenção: na publicação do livro "Quatrocentos contra Um" encontrei a associação do nome de um certo Cesar Benjamin. Nas palavras de Carlos Amorin:


"(...) O livro de William da Silva Lima foi lançado no auditório da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no dia 05 de abril de 1991, durante seminário sobre criminalidade dirigido pelo Instituto de Estudos de Religião, de orientação católica. O texto final foi copidescado por César Queiroz Benjamim, um ex-militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), que trabalhou sobre um original de mais de quatrocentas páginas."

Mas, quem era esse tal de César Queiroz Benjamim. Fui pesquisar: além de ter pertencido ao grupo revolucionário terrorista MR-8, foi, também, nada menos que um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, o PT, e integrante dos principais quadros do partido até 1995. Aqui me fiz a pergunta: por que um dos fundadores e líder do PT estaria diretamente envolvido na publicação e lançamento do livro do, até então, maior criminoso do Brasil, líder máximo do Comando Vermelho? Isso pareceu-me, no mínimo, estranho.

Será que havia mais indícios de uma ligação entre as esquerdas e organizações criminosas. Encontrei um reportagem publicada pela jornal Folha de São Paulo em 24/08/2003, sob a denominação "As Farcs Tem Todo o Tempo do Mundo". Nessa, o enviado especial da Folha, Fabiano Maisonnave, entrevista o falecido Raul Reyes, à época, segundo maior líder organização narcoterrorista, em algum lugar da Amazônia Colombiana. Veja o que ele diz, é impressionante:


"Folha de S. Paulo - Qual é a sua avaliação do governo Lula?

Reyes - Tenho muita esperança em que o governo Lula se transforme num governo que tire o povo brasileiro da crise. Lula é um homem que vem do povo, nos alegramos muito quando ele ganhou. As Farc enviaram uma carta de felicitações. Até agora não recebemos resposta.

Folha de S. Paulo - Vocês têm buscado contato com o governo Lula?

Reyes - Estamos tentando estabelecer - ou restabelecer - as mesmas relações que tínhamos antes, quando ele era apenas o candidato do PT à Presidência.

Folha de S. Paulo - O sr. Conheceu Lula?

Reyes - Sim, não me recordo exatamente em que ano, foi em San Salvador, em um dos Foros de São Paulo.

Folha de S. Paulo - Houve uma conversa?

Reyes - Sim, ficamos encarregados de presidir o encontro. Desde então, nos encontramos em locais diferentes e mantivemos contato até recentemente. Quando ele se tornou presidente, não pudemos mais falar com ele.

Folha de S. Paulo - Qual foi a última vez que o sr. Falou com ele?

Reyes - Não me lembro exatamente. Faz uns três anos" (Folha de São Paulo - 24/08/2003).

Aqui me permiti à dúvida: poderia ser que Reyes estivesse mentindo. O que me garantia que suas palavras fossem expressão da verdade; mas me lembrei de algo que eu mesmo já tinha escrito sobre um vídeo, onde o ex-presidente da Venezuela, Hugo Chávez, diz ter conhecido Raúl Reyes e o ex-presidente Luis Inácio da Silva na mesma ocasião, ou seja, no Foro de São Paulo, que ocorreu em San Salvador. As palavras de Hugo Chávez se coadunam exatamente com a entrevista que próprio líder narcoterrorista, Raúl Reyes, concedeu a Folha de São Paulo. Segue:


“Recebi o convite para assistir, em 1995, ao Foro de São Paulo, que se instalou naquele ano em San Salvador. (…) Naquela ocasião conheci Lula, entre outros. E chegou alguém ao meu posto na reunião, a uma mesa de trabalho onde estávamos em grupo conversando, e lembro que colocou sua mão aqui [no ombro esquerdo] e disse: ‘Cara, quero conversar com você.’ E eu lhe disse: ‘Quem é você?’ ‘Raúl Reyes, um dos comandantes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia.’ Nós nos reunimos nesta noite, em algum bairro humilde lá de El Salvador. (…) E então se abriu um canal de comunicação e ele veio aqui (…) e conversamos horas e horas. Depois, em uma terceira e última ocasião, passou por aqui também.” (Hugo Chávez - em rede nacional - lamentando a morte de Raúl Reyes).

Ao longo de minha vida já li muita coisa; apesar disso, nunca tive conhecimento de que o nome de um presidente, de uma grande democracia como o Brasil, tivesse sido diretamente associado a um narcoterrorista, pela própria pessoa do criminoso. Isso é estarrecedor! Na verdade, isso é uma tragédia diplomática.

Pior! O narcoterrorista alude a felicidade que a subida do ex-presidente brasileiro ao poder causou a sua organização criminosa. "Peraí, como assim?" Uma organização criminoso felicita a subida de Lula ao poder... Algum interesse há nisso! Nenhuma organização criminoso parabenizaria um presidente que soubessem traria dano aos seus negócios, como o do México que desferiu duros golpes ao tráfico de drogas e até hoje é "jurado de morte." Organizações criminosos só mandam felicitações a seus aliados. Daí só posso extrair uma conclusão lógica: "eles são aliados!"

O que mais impressiona e que, o ex-presidente Lula nunca desmentiu essas afirmações; uma feita pelo segundo maior líder da maior organização narcoguerrilheira da America Latina; e a outra, pasmem, feita por um presidente! Lula nunca contestou!

Aqui, infelizmente sou obrigado a usar de lugares-comuns: QUEM CALA CONSENTE!

Por que o ex-presidente nunca contestou? Porquê ele se recusa a reconhecer uma organização que sequestra, trafica, mata e tortura como criminosa. Para ele, são simplesmente revolucionários.

Não me admira que façam (o PT e as Farcs) parte de uma mesma organização internacional (o Foro de São Paulo), fundada pelo ex-presidente Luis Inácio e que, nas atas dessa organização, manifeste apoio incondicional as atividades das Farcs na América Latina como um verdadeira atividade esquerdista revolucionária... Só se as atividades esquerdistas revolucionárias se resumirem a assassinar, traficar, sequestrar e torturar...

De se notar, a entrevista coletiva dada pelo ex-presidente em 28/04/2009, publicada no Estadão sob o título "Lula sugere às Farc criar partido para chegar ao poder":


"Se, em um continente como o nosso, um índio e um metalúrgico podem chegar à Presidência, por que alguém das Farc, disputando eleições, não pode?", disse Lula em Rio Branco (AC), na entrevista coletiva após se reunir com o presidente peruano, Alan García.

O absurdo dessa afirmação é descomunal às raias da loucura!

"Trocando em miúdos": uma organização criminosa, a maior da América Latina, que trafica internacionalmente, mata, tortura, sequestra, escraviza, aterroriza, deve criar um partido político para chegar ao poder. Pensemos dentro dos paradigmas nacionais: O Primeiro Comando da Capital ou o Comando Vermelho, se levarmos em conta as afirmações de Lula, podem criar um partido político para disputar as eleições à presidência da República. Pensem em Marcos Camacho, o "Marcola" ou, talvez, Luiz Fernando, o "Fernandinho Beira-Mar" como presidentes do Brasil.

Isso é de uma absurdidade tamanha, que não posso, diante da pesquisa pretérita, atribui-la à ignorância. No Brasil chamamos isso de "rabo preso".

Nesse ponto de minha pesquisa as informações começaram a se avolumar, mas como o tempo e o espaço, a que me propus neste, não me permitem continuar, vou simplesmente citá-las de passagem: a revista VEJA, publicou uma reportagem em março de 2005, sob a denominação "Laços Explosivos: Documentos secretos guardados nos arquivos da ABIn informam que a narcoguerrilha colombiana Farc deu 5 milhões de dólares a candidatos petistas em 2002"; ou como o Governador Olívio Dutra, do PT, recebeu, no próprio Palácio do Governador, um membro das Farcs com todas as honrarias diplomáticas; mas infelizmente esses são assuntos para um outro artigo.

Começando o término deste artigo, quero utilizar as palavras de Ignazio Silone: "na verdade, as revoluções são como árvores, elas são conhecidas através de seus frutos."

Nas palavras de William da Silva Lima, líder máximo do Comando Vermelho, a previsão do resultado:


"Conseguimos aquilo que a guerrilha não conseguiu: o apoio da população carente. Vou aos morros e vejo crianças com disposição, fumando e vendendo baseado. Futuramente, elas serão três milhões de adolescentes, que matarão vocês nas esquinas. Já pensou o que serão três milhões de adolescentes e dez milhões de desempregados em armas?" (Quatrocentos contra Um)

Você acha que isso é a mera expressão de um delírio megalômano? No ano passado as pesquisas apontaram para os índices de violência brasileiros, um total de 56.337 mil homicídios por ano. Não há país no mundo, mesmo nos que se encontram no mais cruento conflito armado, que ostente tais números de violência. Pergunte aos servidores da Fundação Casa (antiga FEBEM) ou de outros centros socioeducativos estaduais para adolescentes em conflito com a lei, se o dito acima é mero delírio."Três milhões de adolescentes que matarão vocês!"

Ou talvez, devêssemos nos perguntar porque, enquanto, o consumo de drogas diminui em toda a América Latina, somente no Brasil ele está a crescer. Será que há alguma correlação? Será que tendo o ex-líder de nossa nação ligações intimas com a maior organização terrorista e narcoguerrilheira da América Latina isso pode facilitar as coisas, para esse organização, em nosso país? Não sei; isso está além de minhas parcas possibilidades. Digam vocês...

Não conheço Carlos Amorim e, não tenho a intenção de julgá-lo. Seria muita pretensão de minha parte, não tendo ele deixado nada escrito ou documentado sobre suas próprias razões (que o levaram a dizer que nunca encontrou nenhum indício de haver intenção de a esquerda revolucionária querer envolver criminosos comuns na luta classes), querer eu sondar as profundezas de seu coração - ou de qualquer coração humano. Contudo, dentre as explicações que poderia haver, uma coisa sei: os revolucionários da ditadura militar, na década de 90 eram, e mesmo hoje continuam a ser, pessoas que ascenderam ao poder; se tornaram políticos, chefes de redação, professores universitários, homens de muita influência; e, caso fosse o escritor deste livro, com certeza, eu temeria tê-los como inimigos.

Dessa forma, sendo repórter tarimbado em meio ao regime ditatorial militar, Carlos Amorim fez o que aprendeu a fazer durante aquela época; falou uma coisa, deixando que sua obra desse a entender outra; assim como os cantores Gilberto Gil, Caetano Veloso e outros deixaram registrados em suas músicas. Tudo me leva a crer que minhas conclusões sejam verdadeiras, tanto porque, sendo interpelado da mesma forma, na época da publicação de seu livro, segundo os mesmos questionamentos, Carlos Amorim nunca ofereceu contestação, simplesmente calou-se.

Por fim, encontrei o que considero a "cereja do bolo": em um livro intitulado "Camaradas - nos Arquivos Secretos de Moscou", o jornalista William Waack, demonstra como o regime comunista se imiscuiu intimamente na revolução de 1935. Dentre as intromissões, uma me chamou atenção: segundo Waack, em 1933 o Comintern transmitiu uma instrução ao Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro para que, este último, procurasse assumir a liderança de quadrilhas de bandidos, dando ares de "conflito de classes" ao seu conflito com a polícia, a sociedade e a lei. (pg. 55-56)

Realmente, a transmissão de conhecimento aos presos comuns durante a ditadura militar pode ter sido uma questão premeditada.

Apresento minhas conclusões: por tudo o que li e pesquisei, percebo que há uma profunda e perene ligação entre as esquerdas, sejam elas revolucionárias ou politico-partidárias, com o crime organizado. Não posso afirmar, como meu interlocutor, que elas sejam, somente e únicas responsáveis (se é que foi isso que ele quis dizer) pela escalada crescente da criminalidade no Brasil; posso dizer somente que as esquerdas, na pessoa de seus prisioneiros políticos, criaram um "monstro" chamado Comando Vermelho e que, até hoje, mantem relações com organizações criminosos.

Findo. Esses dias atrás, terminei de ler uma das obras de Georges Bernanos, fiquei maravilhado com a profundidade do autor. A profunda análise da natureza humana, da pessoa de um religioso, falou comigo. A cada linha, sentia que segredos de meu próprio coração e de minha vida eram desvelados. Bernanos realmente foi um grande intelectual francês, a seu modo, e a meu ver, incomparável. Posteriormente, vim a saber que ele tinha morado no Brasil durante alguns anos; gostaria de usar suas palavras, que expressam a percepção dele sobre a nação brasileira, para findar esse artigo:


"O Brasil é um país maravilhoso, mas infelizmente destinado a ser palco da mais sangrenta das revoluções".

Se ele está certo, não sei. Mas que conseguiu perceber a profunda mentalidade socialista que, já naquela época, permeava a sociedade brasileira, com certeza.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Red Cocaine - Capítulo 5 - Se organizando para "A Amizade das Nações"

Por favor, avisem-me de qualquer erro de tradução ou de português.

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Red Cocaine - Capítulo 5 - Se organizando para "A Amizade das Nações"

No Ocidente, quando as pessoas falam sobre operações de inteligência, o que eles normalmente têm em mente são operações secretas planejadas por serviços de inteligência, que nem CIA, KGB e a GRU. Este conceito presta um incrível desserviço as operações de inteligência Comunista, que envolve vários agentes, não apenas da KGB e da GRU, e que não são direcionados pelos serviços de inteligência, mas sim pela Conselho de Defesa, pelo Departamento de Órgãos Administrativos ou por outra organização do Partido que seja mais apropriada para a operação. Ou seja, as operações de inteligência são as operações do Partido Comunista designadas para servir aos interesses do Estado, estes que somente o Partido pode estabelecer. O serviço de inteligência não passa de um instrumento estratégico do Partido, novamente em total contraste com os Estados Unidos, que não possuem nada similar. A operação conhecida como "Druzhba Narodov", o capcioso plano do Khrushchev chamado a "Amizade das Nações" é especialmente interessante por conta da visão que nos dá das operações de inteligência dos Soviéticos.

Até mesmo em seu início, na segunda metade da década de 1950, a operação com drogas e narcóticos envolvia muito mais do que agentes da inteligência. Médicos e pessoas relacionadas à medicina também estavam fortemente envolvidas na análise, pesquisa e teste de drogas. A principal força motivadora deste esquema vinha do Nikita Khrushchev, o primeiro Secretário (e mais tarde, Geral) do Partido Comunista da União Soviética (CPSU). O plano inicial foi conduzido por uma força conjunta de militares/civis da Tchecoslováquia citada anteriormente. A incorporação da estratégia de traficar drogas dentro da estratégia de segurança nacional foi gerenciada por um comitê especial sobre a direção de Leonid Brezhnev. Este comitê, que existiu entre o outono 1956 e a primavera de 1957, foi o responsável por evoluir a estratégia Soviética e trazê-la para a era nuclear. O escolhido para ser o substituto do Brezhnev foi o Mikhail Syslov, um dos cabeças da ideologia Soviética. Os líderes do Subcomitê foram o Marshal V. D. Sokolovskiy (militar), Dimitryi Ustinov (indústria militar), Boris Ponomarev (assuntos exteriores) e o General Nikolai Mironov (inteligência).

Duas revisões foram feitas na estratégia Soviética de utilizar drogas e narcóticos durante esta reunião. A primeira envolvia o reconhecimento que as drogas poderiam ser uma arma muito eficaz para enfraquecer as forças militares inimigas. A segunda é que as drogas poderiam ser utilizadas para influenciar os líderes burgueses do Terceiro Mundo e os partidos de Social Democracia, porém ninguém estava previamente excluído.

A responsabilidade por analisar o mercado e quem seriam os alvos foi delegada para o Departamento Internacional do CPSU. O Departamento Internacional também estava envolvido na coleta de informação sobre corrupção dos líderes estrangeiros e no seu uso nas operações de chantagem, intimidação e exposição. O departamento também estava fortemente envolvido na propaganda e planejamento, e muito provavelmente foi o responsável pela liberação da informação do tráfico de drogas pelos Chineses.

A Administração Principal Política do Exército e da Marinha, o departamento que mantém um olhar ideológico sobre os militares, também estava envolvido nesta operação de tráfico de drogas desde o início. Já em 1956, o líder da Tchecoslováquia foi informado pelo general Soviético Kalashnik, o ideólogo da Administração Principal Política, sobre uma nova visão de como as drogas e os produtos químicos eram capazes de alterar a mente e o comportamento de milhões de pessoas. Esta era uma das cinco novas armas que eram capazes "destruir o inimigo antes que ele possa nos destruir". As outras armas consistiam em: ofensiva ideológica, que significa propaganda e enganação, política de borda feita sobre medida para separar o Ocidente, isolamento dos EUA, e por último, caos social e econômico. Era totalmente essencial, General Kalashnik explicou, “que os militares deveriam o mais rápido possível entender que existem armar muito mais efetivas do que as convencionais, incluindo as bombas nucleares”.

Uma explicação foi dada por Khrushchev no início do verão de 1963 em Moscou. Durante uma discussão informal, Khrushchev tinha acabado de criticar Marshal Rodion Ya Malinovsky por querer desesperadamente colocar os seus tanques no Ocidente. Depois Khrushchev explicou que os Soviéticos estavam operando estrategicamente simultaneamente em dois níveis, para engajar o Ocidente numa guerra. No primeiro nível estavam a trapaça, a desinformação e a propaganda. No segundo nível estava a destruição do Capitalismo utilizando o seu próprio dinheiro através das drogas. Assim que estes dois níveis tiverem obtido sucesso, Khrushchev enfatizava, "aí sim, você poderá utilizar o terceiro nível, Camarada Malinosvky, os nossos tanques".

Assim que ofensiva Soviética das drogas cresceu e foi ganhando maturidade, a sua organização foi ficando mais complexa - porém a sua direção e o seu segredo continuavam sobre controle estrito. Este era outra característica das operações Soviéticas: apenas por que uma operação expandia, não significa que o seu controle seria perdido. O Conselho de Defesa é um bom exemplo. O conselho continuou pequeno exatamente para não correr o risco de perder a sua direção e nem a sua segurança. Neste ramo das drogas, apesar de várias pessoas estarem envolvidas, apenas umas poucas sabiam a real razão da operação, ou até mesmo o maciço envolvimento dos Soviéticos.

As principais organizações da Tchecoslováquia que participaram neste negócio com as drogas estão listadas na tabela abaixo. A estrutura organizacional aplicada na Tchecoslováquia equipara-se a estrutura que era utilizada na União Soviética. Algumas organizações possuem nomes diferentes, por exemplo: a versão Tcheca do Departamento Internacional Soviético era o Departamento Estrangeiro; o Secretário Geral Soviético era o Primeiro Secretário; e a KGB Soviética era a Segunda Administração que estava sob as ordens do Ministério do Interior. Existiam centros de pesquisa diferentes na União Soviética, e as organizações Soviéticas eram maiores e mais variadas, porém em sua essência as duas estruturas organizacionais eram iguais.

A principal diferença era que as organizações Soviéticas tomavam as decisões estratégicas em escala global, eram maiores, e eram responsáveis pelos outros Partidos Comunistas que não haviam correspondentes na Tchecoslováquia. Esta última distinção é particularmente importante. Por exemplo, importantes ajudas para o desenvolvimento do tráfico de droga na América latina foram fornecidas pelos Partidos Comunistas locais, que se encontravam todos os anos em Moscou e apresentavam os progressos das operações com droga, dando recomendações de novas técnicas, mercados e táticas.
  

[Continua]!!

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Josué Guimarães – é possível que tenha sido um agente da KGB?

original:
http://stb.cepol24.pl/josue-guimaraes-e-possivel-que-tenha-sido-um-agente-da-kgb


No Brasil foi comentado o caso do escritor brasileiro Josué Guimarães (1921 – 1986),  que viveu em Portugal durante um certo tempo e sobre o qual foi escrito, em base ao Arquivo Mitrokhin, que colaborou com a KGB e que foi um agente deste serviço de inteligência soviético. No jornal brasileiro “Zero Hora”, publicado em Porto Alegre,  pessoas que conheceram o escritor comentaram sobre o caso, afirmando que ele não seria competente para cumprir um papel como este, pois era uma pessoa de convicções não comunistas, aberta e que falava demais. Afirmaram que alguém assim, simplesmente não servia para ser um agente da KGB. Todos aqueles que o conheceram ou que com base em suas experiências tinham algo a dizer a respeito, estão simplesmente convencidos de que a informação do semanário português “Expresso” (março 2016), que foi o primeiro a mencionar o caso do escritor Josué Guimarães, não passa de um sensacionalismo barato que não possui nenhuma cobertura de fatos.


Não conhecemos o conteúdo (não publicado) do Arquivo Mitrokhin que se encontra na Universidade de Cambridge; também não temos acesso às pastas da KGB em Moscou. Por isso, não podemos afirmar nada em concreto sobre a eventual colaboração deste escritor brasileiro com a KGB, nem excluir esta colaboração.  Neste texto, vamos tentar esclarecer por que não é possível excluir a possibilidade de colaboração.

Conhecendo um pouco sobre a prática do serviço de inteligência comunista tchecoslovaco da StB, podemos ter uma idéia sobre o trabalho da KGB soviética. O motivo é simples – o serviço de inteligência tchecoslovaco não somente recebia recomendações e ordens do serviço de inteligência soviético, como também seguia o seu exemplo, ou seja, atuava através dos mesmos princípios durante o trabalho, realizava as suas atividades operacionais no território de países estrangeiros e escolhia os seus colaboradores, trabalhando depois com os mesmos, de um modo idêntico ou semelhante. Conhecendo a maneira de agir da StB, podemos com certeza afirmar que o método de trabalho da KGB soviética não é totalmente desconhecido para nós. Sendo assim, podemos afirmar sem nenhum risco de erro, que os espiões de Moscou que trabalhavam em países estrangeiros também seguiam um padrão semelhante de trabalho.

Em primeiro lugar – as anotações por escrito que Vasili Mitrokhin fazia quando trabalhava para a KGB são somente provas indiretas. Não são fotocópias de documentos, mas “somente” frases e observações escritas, com base nos documentos originais que são e, certamente serão ainda por muito tempo, secretos. Com base em nossa experiência, podemos afirmar que as informações escritas por V. Mitrokhin não foram inventadas, mas sim apresentam o conteúdo dos documentos internos originais da KGB. Isso está bem demonstrado, por exemplo, no caso descrito por nós sobre o ilegal soviético que residiu durante os anos 50 no Brasil, Mikhail Ivanovich Filonienko. A veracidade das informações fornecidas por Mitrokhin, publicadas anteriormente no Ocidente, é confirmada pelo atual serviço de inteligência russo SVR, que nas suas páginas de internet descreve a história deste agente ilegal soviético. Existem inclusive alguns detalhes do livro do antigo arquivista da KGB, que não foram fornecidos pelos russos em suas páginas, mas foram confirmadas por nós. Desta maneira, é possível afirmar que a fonte “Mitrokhin” é duplamente confirmada. Logicamente, isso não permite que ninguém afirme que, tudo que se encontra no arquivo de Cambridge seja cem por cento verdadeiro. Mas muitos outros casos, não somente o de Filonienko, fazem com que essa fonte seja tratada como séria e bastante confiável e, o seu questionamento, deve ser feito de uma maneira complexa, ou seja, não somente através de impressões e observações gerais, mas também com provas concretas nas mãos. O mesmo vale, é claro, quanto a aprovação desta fonte como sendo totalmente confiável: sem a apresentação de outras fontes e provas o caso não poderá ser totalmente comprovado.

Sendo assim, resulta que não estamos em condições (por enquanto), de responder de um modo convincente à pergunta, se o escritor Josué Guimarães realmente foi um colaborador da KGB. Mas, como já esclarecemos, também não podemos excluir esta possibilidade. Nós tratamos o “Arquivo de Mitrokhin” como uma fonte confiável, mas também estamos cientes de que são “somente” anotações por escrito. Anotações que, em face da falta de acesso às pastas de Moscou, possuem um enorme valor.

Argumentos.

O escritor recebeu o codinome  “Gosha” (Gocha). Este fato somente não é suficiente para sinalizar que fosse um agente da KGB. Codinomes eram dados tanto para agentes e informantes, assim como para pessoas observadas e “trabalhadas” (processo de reconhecimento, monitoração e/ou abordagem operacional com determinado objetivo). O fato de receber um codinome comprova somente uma coisa – esta pessoa, por algum motivo, era um objeto de interesse por parte do serviço de inteligência soviético. Podia estar sendo monitorado como um inimigo, como alguém perigoso para a URSS (possibilidade que neste caso podemos excluir) ou como um potencial (inclusive inexperiente) informante e até colaborador. Um “trabalho” como este, geralmente durava aproximadamente um ano, às vezes mais, às vezes menos, e conduzia – após a finalização do reconhecimento sobre o “figurante trabalhado” – a um estágio seguinte, segundo a utilidade de determinada pessoa, de sua motivação para uma colaboração, ou de acordo com o plano operacional do oficial condutor.  Isso significa que,  dependendo do resultado do “trabalho”, esses encontros, ou continuavam a serem realizados ou eram interrompidos. Então, poderia tornar-se um contato de cobertura, ou seja, uma pessoa com a qual o “diplomata” se encontrava de uma forma totalmente legal. Poderia também tornar-se um informante consciente ou inconsciente, com o qual o oficial da KGB se encontrava conspirativamente, assim como poderia tornar-se inclusive um agente ou um contato secreto (um tipo de agente que colaborava com a KGB sem remuneração, mas como um agente de valor completo que fornecia informações e/ou executava operações ativas sob ordens de seu oficial condutor). Aqueles que negam as afirmações do “Expresso” de que Josué foi um agente da KGB, não excluem a possibilidade de que ele realmente poderia ter se encontrado com diplomatas soviéticos.  Foram 38 encontros em Lisboa, 2 em Buenos Aires e 2 no Rio de janeiro. Falta uma informação importante – qual foi o período em que ocorreram estes encontros? Somente no ano mencionado de 1976? Ou também durante um período maior de tempo? A quantidade de encontros leva à conclusão de que ocorreram durante um período mais longo de tempo, já que no âmbito de encontros com agentes tomava-se o cuidado de que, para minimizar o risco de serem descobertos, não fossem realizados mais de dois encontros por mês; somente em casos excepcionais era permitido que os oficiais realizassem uma quantidade maior de encontros. O simples fato destes encontros terem ocorrido, tampouco significam algo sério ou negativo, apesar de que indicam a existência de uma relação ou amizade fora do comum de “Gosha” com os soviéticos. Isso – segundo afirmam os seus defensores  – poderia ser o resultado de suas convicções esquerdistas (mas não comunistas). Isso é possível, assim como é possível também que em sua inocência ele não percebesse que havia se tornado informante de um diplomata ou de diplomatas soviéticos, que  provavelmente eram oficiais da KGB. Gostaríamos de lembrar, que mesmo que a grande maioria dos encontros ocorreram na capital de Portugal, o escritor e jornalista “Gosha” era cidadão brasileiro, ou seja, de um país que então era claramente anticomunista, governado por uma ditadura militar, fortemente de direita. Sendo assim, deveria ele estar consciente de que estes encontros poderiam ser vistos pelas autoridades brasileiras como, no mínimo, inapropriados e, talvez fosse melhor tomar cuidado para que as autoridades brasileiras não tomassem conhecimento sobre os mesmos. Outra questão é se ele foi um informante consciente ou inconsciente. Poderíamos escrever mais a respeito se soubéssemos se ele recebeu ou não remuneração financeira ou presentes, lembranças e favores de seu amigo soviético. É sabido que o recebimento de  qualquer tipo de prêmio ou favor, era visto por (todos) os serviços de inteligência como circunstâncias comprometedoras para o figurante que poderia fornecer argumento para um recrutamento. A fonte portuguesa não cita nenhuma informação sobre isso.
Graças às informações de Rodrigo, filho de Josué Guimarães, sabemos que ele entrou em contato com o político brasileiro Brizola na Argentina. Este, como líder informal de um grupo de oposição no exílio e como um político que continuava a ser importante, sem dúvidas, foi um objeto de interesse por parte da KGB. Isso significa que justamente este contato podia ser muito importante e interessante para um oficial condutor da KGB. Este poderia ser um argumento que apontaria para uma colaboração ou, pelo menos, um interesse maior da KGB pela pessoa do escritor brasileiro.
O perfil político do escritor é apresentado como argumento que exclui a possibilidade de sua colaboração com o serviço de inteligência soviético. Isso seria pura inocência, desinformação consciente ou, simplesmente ignorância. O fato de que ele não era comunista, poderia, aos olhos da KGB, somente aumentar o seu valor. Todo o comunista no mundo ocidental dos anos 70 sempre era mais suspeito de fazer algo ilegal, do que qualquer outra pessoa. Sendo assim, poderia encontrar-se sob observação da contraespionagem do país, que via aos comunistas como inimigos. Além disso, as circunstâncias em que alguém não fazia parte do partido comunista poderiam ser extremamente atraentes para a KGB. Pois há mais esperteza em reunir informações, não onde elas surgem à vontade (já que os comunistas forneciam informações voluntariamente), mas sim, lá onde haviam menos fontes. Ou seja, em outras palavras – os comunistas serviam menos para serem agentes de um serviço de inteligência. Além disso, os contatos de maior importância eram aqueles através dos quais  poderiam ser realizadas operações ativas, ou seja, ações que faziam parte da política de influência soviética em territórios estrangeiros. Pois os textos de um escritor considerado como não comunista (mesmo que seja de esquerda) possuem maior força de persuasão, em uma sociedade democrática, do que aqueles escritos por alguém que é associado com comunistas. Neste caso, a força de convicção é maior. E também mais perigosa, caso o escritor transmita em seus textos os pensamentos, as idéias e os pontos de vista que lhe foram ditados por alguém de Moscou. Não estamos direcionando estas observações (diretamente) para o escritor mencionado; estamos somente tentando demonstrar a metodologia de trabalho do serviço de inteligência comunista. Por exemplo: durante os anos 60 no Brasil, o serviço de inteligência tchecoslovaco foi responsável pela publicação de textos que defendiam a “revolução cubana”, escritos desde pontos de vista burgueses; nestes textos foi feito um esforço para evitar o uso de uma argumentação comunista ou progressista e, ao mesmo tempo, foram escritos premeditadamente e conscientemente de uma forma que seguia os princípios e padrões de uma argumentação democrática, melhorando assim o resultado. Ao mesmo tempo, eram textos inspirados pelo serviço de inteligência comunista que serviam ao seu próprio interesse.
Estas observações derrubam os argumentos dos defensores do escritor – simplesmente quanto mais a pessoa não “combinava” com a imagem de um agente perigoso, melhor era para ocultar o fato de colaboração com um serviço de inteligência estrangeiro. As pastas do serviço de inteligência de Praga estão repletas de casos onde um agente útil e de valor era alguém que não “combinava” com a imagem conhecida de um agente – pessoas pouco sérias, que abusavam do álcool, falavam demais e, mesmo assim, eram agentes úteis. Também temos casos como este. Não existem motivos para que os soviéticos não pudessem trabalhar com uma pessoa assim, que estivesse distante dos padrões de um bom agente desenhados pela literatura sensacionalista.

Caso alguém queira estudar a tese de que o escritor Josué Guimarães pudesse ser um colaborador da KGB soviética, deve estudar profundamente os seus textos; principalmente aqueles do ano de 1976 e anos próximos. Neles, será possível encontrar pistas da influência de estrangeira. Ali será possível encontrar os sinais de operações ativas da KGB, caso estas tenham sido realizadas. Também deveria ser estudada a sua rede de ligações em (e não somente) Lisboa – pois justamente esta rede poderia ser de valor operacional para Moscou, por causa da possibilidade do acesso à informação. Com quem ele se encontrava, a quem conhecia e a quem tinha acesso. O pesquisador também deve estar atento quanto as condições financeiras do escritor naquela época, se por acaso não houve alguma mudança importante. Os resultados de uma verificação como esta poderiam, no máximo, aumentar a possibilidade de que a tese da revista portuguesa “Expresso” esteja correta.

É fácil acusar alguém de relações com a KGB; principalmente quando esta pessoa já é falecida. Apesar de que neste caso, eu compreenda que o motivo seja importante (assim como foi esclarecido acima), tenho consciência de que não foram apresentadas provas e que a acusação foi feita somente em nível de uma tese, que não é fácil de ser defendida. Por outro lado, caso se queira defender o bom nome de uma pessoa alvo deste tipo de acusação, que seja de uma maneira que faça sentido, apresentando argumentos válidos, e não através de explicações que a deixe em uma situação pior!

Vladimír Petrilák

http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/livros/noticia/2016/07/josue-guimaraes-e-kgb-amigos-e-familiares-negam-envolvimento-de-escritor-com-agencia-sovietica-6548472.html

http://poncheverde.blogspot.com.br/2016/07/escritor-gaucho-josue-guimaraes-era-o.html

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Ano de 1961: os soviéticos, graças a ajuda da StB e da KGB, reataram as relações diplomáticas com o Brasil




Original: https://www.facebook.com/notes/stb-no-brasil/ano-de-1961-os-sovi%C3%A9ticos-gra%C3%A7as-a-ajuda-da-stb-e-da-kgb-reataram-as-rela%C3%A7%C3%B5es-di/615779835247839

Janeiro a maio de 1961 foi o palco da ação em que figuraram como protagonistas o serviço de inteligência da Tchecoslováquia, a StB (em tcheco, Státní bezpečnostní), e sua residentura (base do serviço de inteligência no estrangeiro) no Rio de Janeiro. O objetivo: o reatamento das relações diplomáticas entre o Brasil e a União Soviética.

Essas relações estavam rompidas desde o ano de 1947. Enquanto a Tchecoslováquia as mantinha relativamente normais com o Brasil, os soviéticos atuavam em um campo de ação limitado. A Revolução Cubana atraiu atenção para o potencial da América Latina e, por isso, foram obrigados a concentrar suas atividades no maior país daquela região.

Para os soviéticos, não era suficiente estar no controle total das atividades do serviço de inteligência “tcheca”; eles também desejavam estar presentes legalmente. A tarefa de estabelecer novamente as relações diplomáticas foi confiada a um homem que parecia ser “um predestinado”. Esse homem exerceu influência direta sobre o governo de Cuba, e inclusive tornou-se amigo pessoal de Fidel e Che Guevara. Ele era um oficial da KGB e também teve bons relacionamentos pessoais com o novo (a partir de janeiro de 1961) presidente brasileiro Jânio Quadros, que o conheceu em 1959, quando foi seu guia e tradutor em uma visita que fez a Moscou e Leningrado.

Na oportunidade, Jânio Quadros esteve na URSS como um político de oposição. Esse oficial da KGB, mesmo cumprindo um papel muito importante em Havana, durante a crise no Caribe, foi chamado às pressas a Moscou, onde Nikita Sergeyevich Khrushchev (Secretário Geral do Partido Comunista da URSS) lhe confiou uma importante missão: “Você irá ao Brasil!”. Mas, para que a missão obtivesse sucesso, era necessário “incluir” nela os “tchecos”, pois eles já possuíam, na época, um certo domínio do “terreno” e ainda tinham um contato (trata-se aqui de contato legal) no gabinete presidencial.

Os “tchecos”, então, ajudaram a obter o visto para este que talvez tenha sido o primeiro cidadão soviético a visitar legalmente o Brasil desde o ano de 1947. Além disso, foram apanhá-lo no aeroporto, ajudaram-lhe a se alojar no hotel “Miramar”, no Rio de Janeiro, e inclusive a se vestir (no relatório da base da StB do Rio de Janeiro está escrito que lhe ajudaram a comprar um paletó, outras peças de roupa e uma mala), ajudaram ainda a trocar dinheiro em casa de câmbio etc. Depois lhe compraram uma passagem aérea até Brasília (capital), onde deveria encontrar-se com o Presidente Quadros, que, em 1959, havia lhe garantido pessoalmente que quando precisasse “receberia o visto na hora”.

Bem, não foi o que ocorreu, pois sem a ajuda dos agentes da StB, ele não teria recebido o visto. Os “tchecos” levaram um mês para conseguir o documento. Mesmo depois de o oficial da KGB em questão, com “disfarce” de jornalista, ter chegado ao Brasil, a audiência com o presidente ainda não era certa. Os “tchecos”, graças ao seu contato (contato legal, insista-se) no gabinete presidencial (o chefe do departamento cultural - esse funcionário possuía o codinome de MOGUL e como possuía uma visão católica e conservadora e, além disso, era uma pessoa de ótima situação financeira, não servia para ser recrutado como agente), conseguiram rapidamente que fosse atendido pela “eminência parda” de Jânio Quadros, seu secretário pessoal, o Dr. José Aparecido de Oliveira. Isso porque, por uma questão de má sorte, no dia em que o enviado soviético chegou à capital, o presidente precisou viajar por alguns dias. A data do próximo encontro fora então marcada para o próximo dia 5 de maio de 1961.

Assim, Alexander Ivanovich Alexejev (seu sobrenome verdadeiro era Shitov, em russo cirílico, Шитов Александр Иванович, latino, Alexandr Ivanovich Shitov) após regressar ao Rio para depois decolar novamente para a capital Brasília, encontrou-se com o presidente brasileiro Jânio Quadros. A conversa trouxe o efeito esperado e, ao final daquele ano, as relações entre Brasil e URSS foram restabelecidas oficialmente.




A foto acima é do ano de 1963; visita de Fidel Castro à URSS, o homem de óculos à direita de Fidel Castro é Alexejev