segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Red Cocaine - Capítulo 1 - A Ofensiva Chinesa das Drogas

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Red Cocaine - Capítulo 1 - A Ofensiva Chinesa das Drogas

Em 1928, Mao Tse-Tung, o líder comunista Chinês, instruiu um dos seus subordinados de confiança, Tan Chen-Lin, para começar a cultivar ópio em grande quantidade. Mao tinha dois objetivos: utilizar o ópio como fonte de troca para suprimentos necessários e “drogar a região branca” onde “branca” possui sentido ideológico, e não racista. Era assim que Mao se referia à oposição não comunista. A estratégia do Mao era simples; utilizar as drogas para “aliviar” a área almejada. Após esta região estar capturada e sobre controle, proibir o uso de todos os narcóticos e impor controle estrito para garantir que a papoila continuasse exclusivamente como um instrumento do Estado contra seus inimigos.

Mais tarde, Mao falaria do uso do ópio contra os imperialistas apenas como uma fase moderna na guerra do ópio que começou no século XIX. “Ópio foi uma poderosa arma que foi utilizada pelos imperialistas contra os Chineses e deve ser utilizada contra eles na segunda Guerra do Ópio”. Foi assim que Mao explicou para Wang Chen em uma palestra sobre seu plano para plantar ópio, “uma guerra química por métodos primitivos”. Porém, o fato do ópio ter sido previamente utilizado contra os Chineses foi apenas uma desculpa, não a verdadeira razão. Mao utilizou o ópio como uma arma política, pela primeira vez, contra seu próprio povo, os chineses, durante sua caminhada para estabelecer o regime comunista na China. Seu uso do ópio expandiu simplesmente porque se demonstrou como uma arma eficiente. Assim que Mao dominou o território da China em 1949, a produção do ópio foi nacionalizada e o tráfico de narcóticos, contra os estados não comunistas, se tornou a atividade formal do novo estado comunista, a República Popular da China. A operação do tráfico Chinês se expandiu rapidamente. Os alvos oficiais foram: Japão, os exércitos americanos no sudeste asiático e o território americano. As principais organizações envolvidas no início da década de 50 foram o Ministério De Políticas Externas da China, o Ministério do Comércio e o Serviço de Inteligência.

A Coréia do Norte também estava traficando narcóticos cooperando com a China nesta época, e estava diretamente conectada com o fluxo de drogas dentro do Japão e nas bases Americanas no sudeste asiático.
Os problemas domésticos com narcóticos no Japão ficaram sérios em 1946. A Divisão de Investigação Criminal das Forças Armadas Americanas no Japão, junto das autoridades japonesas, começou a construir uma rede por todo o Japão para determinar como as drogas estavam entrando no país. Em 1951, os japoneses oficialmente identificaram os narcóticos que entravam ilegalmente no país e as fontes do tráfico – eram os governos comunistas da China e da Coréia do Norte. Este tráfico não era limitado ao ópio e a heroína, mas também incluía o haxixe, a maconha, cocaína e perigosos estimulantes sintéticos como o hiropon e os aminos butanos. Estes sintéticos são especialmente perigosos e quando analisados são responsáveis por sérios problemas de saúde que começaram a aparecer no Japão no início da década de 1950.

A experiência americana foi similar à japonesa. Um novo tráfico foi identificado no final da década de 1940. “US Narcotics” e agentes especializados se uniram para descobrir estas novas fontes e em 1951 começaram a descobrir grandes quantidades de heroína em grandes portos americanos como Nova Iorque, São Francisco e Seattle. A heroína foi diagnosticada como tendo sido fabricada na China e o tráfico gerenciado pelos Chineses.

Sincronizado com o aumento do tráfico de narcóticos chineses entre 1949 e 1952, a produção de ópio na China aumentou rapidamente e atingiu o patamar de 2.000 a 3.000 toneladas por ano. Esta produção continuou neste patamar entre 1958-1964, quando a produção aumento para incríveis 8.000 toneladas como parte do “Grande Passo Para Frente”. As datas destes aumentos são cruciais. Como será discutido no capítulo 11, numa análise do uso de narcóticos nos Estados Unidos, observa-se dois aumentos abruptos no consumo que se destacam. O uso de narcóticos nos Estados Unidos veio caindo nas décadas de 1930 e 1940. Então começando em 1949-1952, ocorreu uma ascensão abrupta simultaneamente com o lançamento da operação chinesa de tráfico. Após 1952, o consumo de narcóticos decaiu. No final dos anos 50 e no início dos 60, veio o segundo grande aumento. Este segundo aumento coincide precisamente com o segundo momento da operação chinesa e com a entrada da União Soviética no tráfico de narcóticos, como será descrito mais tarde. Esta correlação é um dos indicativos que o aumento do tráfico e consumo de drogas dentro dos Estados Unidos e pelo mundo afora não é um processo evolucional natural, ou um fenômeno condicionado pela “demanda”.  Ao contrário, existem poderosas forças subversivas estimulando e expandindo o consumo.

No caso do tráfico chinês, não existe dúvida que foi uma política oficial do estado.  Dados sobre o tráfico Chinês e Norte-Coreano foi obtido pelo serviço de segurança internacional Japonês, Serviço de Inteligência do Exército Americano e pelo “US Narcotics Bureau” operando com a ajuda de agentes infiltrados e pelos informantes da CIA na China. Estes dados indicavam claramente as fontes de produção, estabelecimentos para empacotamento, rede de tráfico e até mesmo as organizações de gerência. Como será discutida mais tarde, a operação Chinesa de narcóticos estava infiltrada e observada por agentes soviéticos e tchecos, e estavam unidos aos comunistas da Coréia do Norte, do Vietnã e do Japão.

A operação Chinesa dos narcóticos também foi descrita por vários oficiais Chineses que mais tarde abandonaram a China e conseguiram asilo político em outros países. Um destes que desertou no fim de 1950 descreveu uma reunião secreta os oficiais do estado em 1952, quando a operação Chinesa foi reorganizada, e um plano de 20 anos de duração foi adotado. Nesta reunião, foram tomadas decisões para regular a quantidade de narcóticos, estabeleceram regulações para promoções, fizeram agendas desenvolvidas para encorajar uma propaganda agressiva, despacharam representantes de vendas, expandiram a pesquisa e produção e reorganizaram responsabilidades de gerenciamento.
Esta informação também é confirmada por dados coletadas pelos agentes de Inteligência da União Soviética e Tchecos, como será discutido in maiores detalhes pelos Capítulos 4 e 6.

A organização por detrás da operação Chinesa dos narcóticos foi extensiva e envolveu desde vários ministérios e agências estatais até os níveis mais locais. Estas organizações supervisionaram a valorização das terras de produção (Ministério da Agricultura); cultivo e pesquisa para produzir variedades melhores da papoula (Ministro da Agricultura); desenvolvimento de opiáceos (Comitê para A Revisão da Austeridade); controle de estoque e preparação para exportação (Ministro do Comércio); gerenciamento das organizações de comercio exterior (Ministro do Comercio Estrangeiro); controle estatístico e produção (Quadro de Produção do Governo Central); finanças (Ministério das Finanças); propaganda atrás de representantes especiais e criação de intrigas políticas (Ministério de Assuntos Estrangeiros); e segurança e cobertura das operações (Ministério da Segurança Pública).

O portfólio de técnicas do tráfico contava com os do contrabando clássico; transporte utilizando as empresas de navegação (algumas informadas e outras desinformadas disto); uso de comunistas e chineses dispersos pelo mundo; colaboração com os sindicatos dos crimes organizados; uso de mercadorias normais como disfarce; transporte por correio; e falsificação ou empacotamento falso utilizando marcas conhecidas. Como veremos mais adiante, a estratégia e a tática Soviética utilizaram técnicas similares, organização, gerenciamento, alvos e motivações – embora num estilo Leninista e numa escala imensamente maior.

Nas décadas de 1950 e 1960, provavelmente o mais importante oficial operando no dia-a-dia do controle da operação das drogas na China foi Chou Em-Lai. Como o ideológico chefe Soviético, Mikhail A. Suslov explicou durante um importante discurso na China em um encontro com o Comitê Central Soviético em fevereiro de 1964, a estratégia de Chou En-Lai era “desarmar os capitalistas com coisas que eles adoram provar” [referindo-se as drogas].

Professor J. H. Turnbull foi o chefe do Departamento de Química Aplicada no Colégio Militar-Real de Ciência em  Shrivenham na Inglaterra e especialista em tráfico de narcóticos e suas implicações estratégicas. Em 1972, seguindo a publicidade focada no maciço uso de narcóticos contra os soldados Americanos no Sudeste da Ásia (ver Capítulo 16), Turnbull preparou um sucinto relatório da estratégia do tráfico de narcótico Chinês. O Tráfico Chinês, ele escreveu, era “direcionado aos grandes setores industriais do Mundo Livre. Em termos comerciais isto oferece alvos óbvios, já que eles proveem tanto grandes e fluentes mercados”. Estes setores industriais eram particularmente vulneráveis por causa da natureza aberta de suas sociedades.

A produção e distribuição de drogas, Turnbull enfatizou, foram “uma valiosa fonte de renda nacional e uma poderosa arma de subversão”. Ele identificou três grandes objetivos básicos das atividades subversivas da China no emprego das drogas: financiar as atividades subversivas pelo mundo; corromper e enfraquecer as pessoas do Mundo Livre; e destruir a moral dos combatentes Americanos no sudeste asiático.


A conclusão do Turnbull foi praticamente igual àquela chegada vinte anos antes pelo Comissário de Narcóticos dos Estados Unidos, Harry Anslinger - sendo bastante revelador hoje. A disseminação secreta de narcóticos do ópio, em particular a viciante droga heroína, para objetivos tantos comerciais como para subversivos, representa uma das maiores ameaças para os serviços armados e para as sociedades do Mundo Livre. A operação subversiva precisa ser reconhecida como uma forma peculiar de guerra química, naquela a qual a vítima voluntariamente se expõe ao ataque.