segunda-feira, 25 de julho de 2016

Josué Guimarães – é possível que tenha sido um agente da KGB?

original:
http://stb.cepol24.pl/josue-guimaraes-e-possivel-que-tenha-sido-um-agente-da-kgb


No Brasil foi comentado o caso do escritor brasileiro Josué Guimarães (1921 – 1986),  que viveu em Portugal durante um certo tempo e sobre o qual foi escrito, em base ao Arquivo Mitrokhin, que colaborou com a KGB e que foi um agente deste serviço de inteligência soviético. No jornal brasileiro “Zero Hora”, publicado em Porto Alegre,  pessoas que conheceram o escritor comentaram sobre o caso, afirmando que ele não seria competente para cumprir um papel como este, pois era uma pessoa de convicções não comunistas, aberta e que falava demais. Afirmaram que alguém assim, simplesmente não servia para ser um agente da KGB. Todos aqueles que o conheceram ou que com base em suas experiências tinham algo a dizer a respeito, estão simplesmente convencidos de que a informação do semanário português “Expresso” (março 2016), que foi o primeiro a mencionar o caso do escritor Josué Guimarães, não passa de um sensacionalismo barato que não possui nenhuma cobertura de fatos.


Não conhecemos o conteúdo (não publicado) do Arquivo Mitrokhin que se encontra na Universidade de Cambridge; também não temos acesso às pastas da KGB em Moscou. Por isso, não podemos afirmar nada em concreto sobre a eventual colaboração deste escritor brasileiro com a KGB, nem excluir esta colaboração.  Neste texto, vamos tentar esclarecer por que não é possível excluir a possibilidade de colaboração.

Conhecendo um pouco sobre a prática do serviço de inteligência comunista tchecoslovaco da StB, podemos ter uma idéia sobre o trabalho da KGB soviética. O motivo é simples – o serviço de inteligência tchecoslovaco não somente recebia recomendações e ordens do serviço de inteligência soviético, como também seguia o seu exemplo, ou seja, atuava através dos mesmos princípios durante o trabalho, realizava as suas atividades operacionais no território de países estrangeiros e escolhia os seus colaboradores, trabalhando depois com os mesmos, de um modo idêntico ou semelhante. Conhecendo a maneira de agir da StB, podemos com certeza afirmar que o método de trabalho da KGB soviética não é totalmente desconhecido para nós. Sendo assim, podemos afirmar sem nenhum risco de erro, que os espiões de Moscou que trabalhavam em países estrangeiros também seguiam um padrão semelhante de trabalho.

Em primeiro lugar – as anotações por escrito que Vasili Mitrokhin fazia quando trabalhava para a KGB são somente provas indiretas. Não são fotocópias de documentos, mas “somente” frases e observações escritas, com base nos documentos originais que são e, certamente serão ainda por muito tempo, secretos. Com base em nossa experiência, podemos afirmar que as informações escritas por V. Mitrokhin não foram inventadas, mas sim apresentam o conteúdo dos documentos internos originais da KGB. Isso está bem demonstrado, por exemplo, no caso descrito por nós sobre o ilegal soviético que residiu durante os anos 50 no Brasil, Mikhail Ivanovich Filonienko. A veracidade das informações fornecidas por Mitrokhin, publicadas anteriormente no Ocidente, é confirmada pelo atual serviço de inteligência russo SVR, que nas suas páginas de internet descreve a história deste agente ilegal soviético. Existem inclusive alguns detalhes do livro do antigo arquivista da KGB, que não foram fornecidos pelos russos em suas páginas, mas foram confirmadas por nós. Desta maneira, é possível afirmar que a fonte “Mitrokhin” é duplamente confirmada. Logicamente, isso não permite que ninguém afirme que, tudo que se encontra no arquivo de Cambridge seja cem por cento verdadeiro. Mas muitos outros casos, não somente o de Filonienko, fazem com que essa fonte seja tratada como séria e bastante confiável e, o seu questionamento, deve ser feito de uma maneira complexa, ou seja, não somente através de impressões e observações gerais, mas também com provas concretas nas mãos. O mesmo vale, é claro, quanto a aprovação desta fonte como sendo totalmente confiável: sem a apresentação de outras fontes e provas o caso não poderá ser totalmente comprovado.

Sendo assim, resulta que não estamos em condições (por enquanto), de responder de um modo convincente à pergunta, se o escritor Josué Guimarães realmente foi um colaborador da KGB. Mas, como já esclarecemos, também não podemos excluir esta possibilidade. Nós tratamos o “Arquivo de Mitrokhin” como uma fonte confiável, mas também estamos cientes de que são “somente” anotações por escrito. Anotações que, em face da falta de acesso às pastas de Moscou, possuem um enorme valor.

Argumentos.

O escritor recebeu o codinome  “Gosha” (Gocha). Este fato somente não é suficiente para sinalizar que fosse um agente da KGB. Codinomes eram dados tanto para agentes e informantes, assim como para pessoas observadas e “trabalhadas” (processo de reconhecimento, monitoração e/ou abordagem operacional com determinado objetivo). O fato de receber um codinome comprova somente uma coisa – esta pessoa, por algum motivo, era um objeto de interesse por parte do serviço de inteligência soviético. Podia estar sendo monitorado como um inimigo, como alguém perigoso para a URSS (possibilidade que neste caso podemos excluir) ou como um potencial (inclusive inexperiente) informante e até colaborador. Um “trabalho” como este, geralmente durava aproximadamente um ano, às vezes mais, às vezes menos, e conduzia – após a finalização do reconhecimento sobre o “figurante trabalhado” – a um estágio seguinte, segundo a utilidade de determinada pessoa, de sua motivação para uma colaboração, ou de acordo com o plano operacional do oficial condutor.  Isso significa que,  dependendo do resultado do “trabalho”, esses encontros, ou continuavam a serem realizados ou eram interrompidos. Então, poderia tornar-se um contato de cobertura, ou seja, uma pessoa com a qual o “diplomata” se encontrava de uma forma totalmente legal. Poderia também tornar-se um informante consciente ou inconsciente, com o qual o oficial da KGB se encontrava conspirativamente, assim como poderia tornar-se inclusive um agente ou um contato secreto (um tipo de agente que colaborava com a KGB sem remuneração, mas como um agente de valor completo que fornecia informações e/ou executava operações ativas sob ordens de seu oficial condutor). Aqueles que negam as afirmações do “Expresso” de que Josué foi um agente da KGB, não excluem a possibilidade de que ele realmente poderia ter se encontrado com diplomatas soviéticos.  Foram 38 encontros em Lisboa, 2 em Buenos Aires e 2 no Rio de janeiro. Falta uma informação importante – qual foi o período em que ocorreram estes encontros? Somente no ano mencionado de 1976? Ou também durante um período maior de tempo? A quantidade de encontros leva à conclusão de que ocorreram durante um período mais longo de tempo, já que no âmbito de encontros com agentes tomava-se o cuidado de que, para minimizar o risco de serem descobertos, não fossem realizados mais de dois encontros por mês; somente em casos excepcionais era permitido que os oficiais realizassem uma quantidade maior de encontros. O simples fato destes encontros terem ocorrido, tampouco significam algo sério ou negativo, apesar de que indicam a existência de uma relação ou amizade fora do comum de “Gosha” com os soviéticos. Isso – segundo afirmam os seus defensores  – poderia ser o resultado de suas convicções esquerdistas (mas não comunistas). Isso é possível, assim como é possível também que em sua inocência ele não percebesse que havia se tornado informante de um diplomata ou de diplomatas soviéticos, que  provavelmente eram oficiais da KGB. Gostaríamos de lembrar, que mesmo que a grande maioria dos encontros ocorreram na capital de Portugal, o escritor e jornalista “Gosha” era cidadão brasileiro, ou seja, de um país que então era claramente anticomunista, governado por uma ditadura militar, fortemente de direita. Sendo assim, deveria ele estar consciente de que estes encontros poderiam ser vistos pelas autoridades brasileiras como, no mínimo, inapropriados e, talvez fosse melhor tomar cuidado para que as autoridades brasileiras não tomassem conhecimento sobre os mesmos. Outra questão é se ele foi um informante consciente ou inconsciente. Poderíamos escrever mais a respeito se soubéssemos se ele recebeu ou não remuneração financeira ou presentes, lembranças e favores de seu amigo soviético. É sabido que o recebimento de  qualquer tipo de prêmio ou favor, era visto por (todos) os serviços de inteligência como circunstâncias comprometedoras para o figurante que poderia fornecer argumento para um recrutamento. A fonte portuguesa não cita nenhuma informação sobre isso.
Graças às informações de Rodrigo, filho de Josué Guimarães, sabemos que ele entrou em contato com o político brasileiro Brizola na Argentina. Este, como líder informal de um grupo de oposição no exílio e como um político que continuava a ser importante, sem dúvidas, foi um objeto de interesse por parte da KGB. Isso significa que justamente este contato podia ser muito importante e interessante para um oficial condutor da KGB. Este poderia ser um argumento que apontaria para uma colaboração ou, pelo menos, um interesse maior da KGB pela pessoa do escritor brasileiro.
O perfil político do escritor é apresentado como argumento que exclui a possibilidade de sua colaboração com o serviço de inteligência soviético. Isso seria pura inocência, desinformação consciente ou, simplesmente ignorância. O fato de que ele não era comunista, poderia, aos olhos da KGB, somente aumentar o seu valor. Todo o comunista no mundo ocidental dos anos 70 sempre era mais suspeito de fazer algo ilegal, do que qualquer outra pessoa. Sendo assim, poderia encontrar-se sob observação da contraespionagem do país, que via aos comunistas como inimigos. Além disso, as circunstâncias em que alguém não fazia parte do partido comunista poderiam ser extremamente atraentes para a KGB. Pois há mais esperteza em reunir informações, não onde elas surgem à vontade (já que os comunistas forneciam informações voluntariamente), mas sim, lá onde haviam menos fontes. Ou seja, em outras palavras – os comunistas serviam menos para serem agentes de um serviço de inteligência. Além disso, os contatos de maior importância eram aqueles através dos quais  poderiam ser realizadas operações ativas, ou seja, ações que faziam parte da política de influência soviética em territórios estrangeiros. Pois os textos de um escritor considerado como não comunista (mesmo que seja de esquerda) possuem maior força de persuasão, em uma sociedade democrática, do que aqueles escritos por alguém que é associado com comunistas. Neste caso, a força de convicção é maior. E também mais perigosa, caso o escritor transmita em seus textos os pensamentos, as idéias e os pontos de vista que lhe foram ditados por alguém de Moscou. Não estamos direcionando estas observações (diretamente) para o escritor mencionado; estamos somente tentando demonstrar a metodologia de trabalho do serviço de inteligência comunista. Por exemplo: durante os anos 60 no Brasil, o serviço de inteligência tchecoslovaco foi responsável pela publicação de textos que defendiam a “revolução cubana”, escritos desde pontos de vista burgueses; nestes textos foi feito um esforço para evitar o uso de uma argumentação comunista ou progressista e, ao mesmo tempo, foram escritos premeditadamente e conscientemente de uma forma que seguia os princípios e padrões de uma argumentação democrática, melhorando assim o resultado. Ao mesmo tempo, eram textos inspirados pelo serviço de inteligência comunista que serviam ao seu próprio interesse.
Estas observações derrubam os argumentos dos defensores do escritor – simplesmente quanto mais a pessoa não “combinava” com a imagem de um agente perigoso, melhor era para ocultar o fato de colaboração com um serviço de inteligência estrangeiro. As pastas do serviço de inteligência de Praga estão repletas de casos onde um agente útil e de valor era alguém que não “combinava” com a imagem conhecida de um agente – pessoas pouco sérias, que abusavam do álcool, falavam demais e, mesmo assim, eram agentes úteis. Também temos casos como este. Não existem motivos para que os soviéticos não pudessem trabalhar com uma pessoa assim, que estivesse distante dos padrões de um bom agente desenhados pela literatura sensacionalista.

Caso alguém queira estudar a tese de que o escritor Josué Guimarães pudesse ser um colaborador da KGB soviética, deve estudar profundamente os seus textos; principalmente aqueles do ano de 1976 e anos próximos. Neles, será possível encontrar pistas da influência de estrangeira. Ali será possível encontrar os sinais de operações ativas da KGB, caso estas tenham sido realizadas. Também deveria ser estudada a sua rede de ligações em (e não somente) Lisboa – pois justamente esta rede poderia ser de valor operacional para Moscou, por causa da possibilidade do acesso à informação. Com quem ele se encontrava, a quem conhecia e a quem tinha acesso. O pesquisador também deve estar atento quanto as condições financeiras do escritor naquela época, se por acaso não houve alguma mudança importante. Os resultados de uma verificação como esta poderiam, no máximo, aumentar a possibilidade de que a tese da revista portuguesa “Expresso” esteja correta.

É fácil acusar alguém de relações com a KGB; principalmente quando esta pessoa já é falecida. Apesar de que neste caso, eu compreenda que o motivo seja importante (assim como foi esclarecido acima), tenho consciência de que não foram apresentadas provas e que a acusação foi feita somente em nível de uma tese, que não é fácil de ser defendida. Por outro lado, caso se queira defender o bom nome de uma pessoa alvo deste tipo de acusação, que seja de uma maneira que faça sentido, apresentando argumentos válidos, e não através de explicações que a deixe em uma situação pior!

Vladimír Petrilák

http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/livros/noticia/2016/07/josue-guimaraes-e-kgb-amigos-e-familiares-negam-envolvimento-de-escritor-com-agencia-sovietica-6548472.html

http://poncheverde.blogspot.com.br/2016/07/escritor-gaucho-josue-guimaraes-era-o.html

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Ano de 1961: os soviéticos, graças a ajuda da StB e da KGB, reataram as relações diplomáticas com o Brasil




Original: https://www.facebook.com/notes/stb-no-brasil/ano-de-1961-os-sovi%C3%A9ticos-gra%C3%A7as-a-ajuda-da-stb-e-da-kgb-reataram-as-rela%C3%A7%C3%B5es-di/615779835247839

Janeiro a maio de 1961 foi o palco da ação em que figuraram como protagonistas o serviço de inteligência da Tchecoslováquia, a StB (em tcheco, Státní bezpečnostní), e sua residentura (base do serviço de inteligência no estrangeiro) no Rio de Janeiro. O objetivo: o reatamento das relações diplomáticas entre o Brasil e a União Soviética.

Essas relações estavam rompidas desde o ano de 1947. Enquanto a Tchecoslováquia as mantinha relativamente normais com o Brasil, os soviéticos atuavam em um campo de ação limitado. A Revolução Cubana atraiu atenção para o potencial da América Latina e, por isso, foram obrigados a concentrar suas atividades no maior país daquela região.

Para os soviéticos, não era suficiente estar no controle total das atividades do serviço de inteligência “tcheca”; eles também desejavam estar presentes legalmente. A tarefa de estabelecer novamente as relações diplomáticas foi confiada a um homem que parecia ser “um predestinado”. Esse homem exerceu influência direta sobre o governo de Cuba, e inclusive tornou-se amigo pessoal de Fidel e Che Guevara. Ele era um oficial da KGB e também teve bons relacionamentos pessoais com o novo (a partir de janeiro de 1961) presidente brasileiro Jânio Quadros, que o conheceu em 1959, quando foi seu guia e tradutor em uma visita que fez a Moscou e Leningrado.

Na oportunidade, Jânio Quadros esteve na URSS como um político de oposição. Esse oficial da KGB, mesmo cumprindo um papel muito importante em Havana, durante a crise no Caribe, foi chamado às pressas a Moscou, onde Nikita Sergeyevich Khrushchev (Secretário Geral do Partido Comunista da URSS) lhe confiou uma importante missão: “Você irá ao Brasil!”. Mas, para que a missão obtivesse sucesso, era necessário “incluir” nela os “tchecos”, pois eles já possuíam, na época, um certo domínio do “terreno” e ainda tinham um contato (trata-se aqui de contato legal) no gabinete presidencial.

Os “tchecos”, então, ajudaram a obter o visto para este que talvez tenha sido o primeiro cidadão soviético a visitar legalmente o Brasil desde o ano de 1947. Além disso, foram apanhá-lo no aeroporto, ajudaram-lhe a se alojar no hotel “Miramar”, no Rio de Janeiro, e inclusive a se vestir (no relatório da base da StB do Rio de Janeiro está escrito que lhe ajudaram a comprar um paletó, outras peças de roupa e uma mala), ajudaram ainda a trocar dinheiro em casa de câmbio etc. Depois lhe compraram uma passagem aérea até Brasília (capital), onde deveria encontrar-se com o Presidente Quadros, que, em 1959, havia lhe garantido pessoalmente que quando precisasse “receberia o visto na hora”.

Bem, não foi o que ocorreu, pois sem a ajuda dos agentes da StB, ele não teria recebido o visto. Os “tchecos” levaram um mês para conseguir o documento. Mesmo depois de o oficial da KGB em questão, com “disfarce” de jornalista, ter chegado ao Brasil, a audiência com o presidente ainda não era certa. Os “tchecos”, graças ao seu contato (contato legal, insista-se) no gabinete presidencial (o chefe do departamento cultural - esse funcionário possuía o codinome de MOGUL e como possuía uma visão católica e conservadora e, além disso, era uma pessoa de ótima situação financeira, não servia para ser recrutado como agente), conseguiram rapidamente que fosse atendido pela “eminência parda” de Jânio Quadros, seu secretário pessoal, o Dr. José Aparecido de Oliveira. Isso porque, por uma questão de má sorte, no dia em que o enviado soviético chegou à capital, o presidente precisou viajar por alguns dias. A data do próximo encontro fora então marcada para o próximo dia 5 de maio de 1961.

Assim, Alexander Ivanovich Alexejev (seu sobrenome verdadeiro era Shitov, em russo cirílico, Шитов Александр Иванович, latino, Alexandr Ivanovich Shitov) após regressar ao Rio para depois decolar novamente para a capital Brasília, encontrou-se com o presidente brasileiro Jânio Quadros. A conversa trouxe o efeito esperado e, ao final daquele ano, as relações entre Brasil e URSS foram restabelecidas oficialmente.




A foto acima é do ano de 1963; visita de Fidel Castro à URSS, o homem de óculos à direita de Fidel Castro é Alexejev

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

World Thought Police - Capítulo 1 - Contexto Histórico

Por favor, avisem-me de qualquer erro de tradução ou de portugûes.

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World Thought Police - Capítulo 1 - Contexto Histórico

Press Agency Novosti, ou APN, (Novosti que curiosamente significa notícia em russo) foi fundada em 1961 como uma agência “independente, não governamental”, praticamente como uma organização virgem¹², o quê é, em si, totalmente desprovido de sentido em um país onde tudo, desde os satélites Sputniks¹³ até os banheiros, pertencem ao povo, ou seja, são controlados pelo Estado. Os prospectos da Novosti dizem que a APN “é uma agência de informação das organizações públicas Soviéticas... facilitando de todas as formas a promoção e consolidação de maneira internacional do conhecimento, confiança e amizade, circulando EM TODOS OS LADOS¹⁴ a verdadeira informação sobre a União Soviética e informando os Soviéticos da vida de outros povos...”


Desde o primeiro segundo da sua fundação, a APN foi subordinada, de fato, a dois chefes: Department of Agitation and Propaganda of the Central Committee of the CPSU (Agitprop) ( Departamento de Agitação e Propaganda do Comitê Cental do Partido Comunista da União Soviética) e o Department of Disinformation of the KGB (Departamento de Desinformação da KGB), com o propósito de planejar, coordenar e conduzir medidas ativas¹⁴ contra o público e o governo em países não-Soviéticos (não controlados pela União Soviética e seus vizinhos), principalmente pela imprensa destes países. Os alvos da manipulação da APN-KGB também incluem organizações públicas e políticas, grupos religiosos, sistemas educacionais, a indústria do entretenimento (cinema, TV, companhias de promoção de troca de cultura¹⁵ etc...), assim como indivíduos: políticos, membros do parlamento, burocráticos dos serviços sociais, líderes e ativistas dos sindicatos, empresários, publicitários, intelectuais (professores universitários, escritores, cientistas) - ou seja, todo mundo que tem a capacidade de influenciar outras pessoas, de modelar a opinião pública e policiar as atitudes e as decisões tomadas a nível da nação.

Propaganda do Marxismo-Leninismo (ou as “vantagens” do Socialismo e da economia planejada) e a denuncia do “Decadente Imperialismo Ocidental” são apenas uma pequena parte das atividades da Novosti. Quando da fundação da Novosti, a era pós-Stalin, demandava novos métodos e abordagens. Ataques frontais a ideologia Ocidental se provaram ineficiente e até contra-produtivos, especialmente no Terceiro Mundo: Ásia, África e América Latina. A idade moderna das comunicações obrigaram a uma maneira mais sofisticada de moldar a opinião pública fora da URSS. A sub-versão a curto-prazo de algumas personalidades chaves deveria ser combinada com uma subversão a longo-prazo, porém de maneira mais efetiva e que criasse, de maneira irreversível, uma mudança no processo de percepção da realidade de milhões de votantes em sociedades pluralistas.

Sobre o comando de Yuri Andropov, a nova geração de especialistas das relações públicas da KGB começou a emergir: altamente educados e treinados, graduados nas escolas Soviéticas, falando fluentemente duas ou mais línguas, entendidos de história, literatura, religião, estilo de vida e estrutura política-social dos países alvos.

Esse foi o tempo na nova “linha geral” da CPSU-CC (Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética). Um novo clichê da propaganda foi criada – um “terceiro modo” de desenvolvimento das colônias ocidentais em formação (não-comunistas, porém ainda não capitalistas, porém com certeza “anti-imperialistas”, principalmente num estilo de desenvolvimento anti-americano). A implementação desta politica requeria milhares de profissionais de jornalismo, bem treinados no estilo ocidental de jornalismo e no processamento das informações e na apresentação das opiniões da maneira mais emocional possível, apelando sempre para os instintos mais primitivos do homem: medo (da guerra nuclear e/ou da confrontação com a URSS), autopreservação (você preferiria viver em sociedade “cruel, poluída onde só o lucro interessa” ou em uma sociedade “cientificamente planejada, racional, sem poluição onde a riqueza está totalmente distribuída”) e o amor (das crianças, da família, da paz, dos amigos, dos irmãos de classe e raça e etc...) .

Naquela época os ideólogos e especialistas da CPSU-CC tinham trabalhado numa nova linha de operações da KGB que mais tarde foi chamada de “medidas ativas”. Essas medidas tinham muito pouco a ver com a clássica e romanceada concepção de espionagem da época do Stalin. Fontes confiáveis estimam que a espionagem clássica (estilo James Bond) correspondiam a mais ou menos 15% ou 20% do tempo, do dinheiro e da força de trabalho da KGB. Os 80% restantes eram direcionados a criação de um clima ideológico nos países alvos que permitia que os agentes de influência Soviéticos simplesmente comprassem (ou pegassem) os dados da inteligência local de maneira legítima e aparente.

O real objetivo da nova política de atividade da Novosti não é aprender os segredos do adversário, e nem mesmo ensinar as massas do ocidente o espírito da ideologia do Marxismo-Leninismo, mas sim substituir vagarosamente a sociedade de livre-mercado capitalista, com sua liberdade individual na economia e na esfera politico-social – com uma cópia do sistema “mais progressivo” e eventualmente formar um sistema mundial controlado por uma burocracia benevolente que eles chamam de Socialismo (ou Comunismo, como o estágio supremo deste “progresso”).

Para efetuar esta mudança gradual, é muito mais fácil e bem menos doloroso (e menos perceptível para a população) mudar a percepção da realidade, as atitudes, os padrões de comportamento e criar várias demandas e expectativas, levando assim a aceitação do totalitarismo¹⁶. Assim a imprensa é o principal alvo da manipulação da manipulada-independente-não-governamental organização pública Novosti.

[TRADUÇÃO INTERROMPIDA]

11 Um personagem do romance 1984 que representa a burocracia totalitária que controla totalmente seus cidadãos a ponto de poder vê-los em uma TV, sempre lembrado-os da propaganda estatal “O Big Brother está o vendo”
12 No original: grass'root. Significa algo totalmente não adaptado, modificado.
13 Satélites robôs Soviéticos. O Sputnik 1 foi o primeiro objeto feito pelo homem enviado a órbita terrestre, isso em 1957. Sputnik em russo significa literalmente satélite.
14 Grifo do Tomas.
15 No original:cultural exchange. Aqueles programas onde um pessoa vai morar com uma família em outro país, absorvendo assim a cultura do páis.
16 Quanto a criação de demandas e se aproveitar do caos criado ver: “Cloward-Piven Strategy”

World Thought Police - Traduzido para Portugês





World Thought Police

Tomas Schuman/Yuri Bezmenov

Polícia Mundial dos Pensamentos

Tomas Schuman/Yuri Bezmenov

Introdução
Capítulo 2. Structure and Functions
Capítulo 3. P.R. Men — The Friendly Mind-Benders
Capítulo 4. Novosti cadres
Capítulo 5. Party Line of Novosti
Capítulo 6. Novosti's Connection with the KGB
Capítulo 7. The vicious Circle of Untruth
Capítulo 8. Homemade Propaganda
Capítulo 9. Novosti Space Bluff
Capítulo 10. Human Interest Propaganda
Capítulo 11. Indo-Soviet Friendship: My Cup of Tea
Capítulo 12. Collaborators: Who Are They?
Capítulo 13. Foreign Press Collaborators
Capítulo 14. Services and Pay
Capítulo 15. Overt and Legitimate Operations
Capítulo 16. Covert & Illegitimate Active Measures
Capítulo 17. Pentagon's Gun Fodder or America's Conscience?

PDF Completo com as últimas atualizações:


Ver também:

Entrevista do Tomas em 1983 (em inglês):




Versão com legendas em Portugês

0:00:21 
Entrevista em forma de documentário em 1984 para G. Edward Griffin. Legendas por David Carvalho. 

Palestrada dada em uma universidade de Los Angeles em 1983, também legendada e editada por David Carvalho.

Anexo da palestra anterior, autoria desconhecida. 

Vídeo curto didático feito pelo Zé Oswaldo estabelecendo um comparativo paralelo entre trechos da palestra e elementos da realidade brasileira atual.





Livro Original em inglês

https://archive.org/details/BezmenovWorldThoughtPolice1986

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

O KGB e a Desinformação Soviética: Uma visão por dentro - Carta forjada sobre intervenção da CIA

Ladislav Bittman

Capítulo 1
página 8


[...]

Em fevereiro de 1965, o serviço secreto me enviou a vários países da América latina, incluindo o Brasil e a Argentina, para fazer uma avaliação pessoal do clima político e para procurar novas ideias operacionais. Naquela época, a inteligência da Checoslováquia já possuía vários jornalistas a sua disposição na América Latina. Eles influenciavam diversos jornais, tanto de maneira ideológica, como de maneira financeira no México e no Uruguai e, até mesmo, era dono de um jornal político no Brasil até abril de 1964. Porém, a desinformação era tradicionalmente associada em larga escala as técnicas de falsificação.

A operação Thoman Mann estava muito próxima do seu fim quando cheguei ao Brasil. O objetivo da minha operação era provar que a política exterior dos EUA na América Latina passou por uma fundamental reavaliação e transformação desde a morte do presidente John F. Kennedy. Nós queríamos destacar que a política dos EUA era uma de exploração e interferência nas condições internas dos países Latinos Americanos. De acordo com esta teoria que forjamos, o Secretário de Estado Thoman A. Mann era o autor e o diretor desta nova política. Nós queríamos dar a impressão que os EUA estavam impondo uma pressão econômica injusta na América Latina com políticas que eram desfavoráveis para investimentos do capital privado dos EUA. Nós também queríamos criar a impressão que os EUA estavam empurrando a Organização dos Estados Americanos (OAS) para uma atividade mais anticomunista enquanto a CIA estava planejando golpes contra os regimes do Chile, Uruguai, Brasil, México e Cuba. A operação foi desenvolvida para alertar o público da América Latina contra a nova linha dura da política dos EUA, para incitar mais intensamente as revoltas antiamericanas e para deixar a impressão que a CIA era um notório gerador de intrigas antidemocráticas.

A operação se baseou em canais anônimos para disseminar uma série de falsificações. A primeira falsificação, uma nota pública da Agência de Informação dos EUA (USIA), totalmente falsa, foi lançada no Rio de Janeiro e continha os princípios fundamentais da "nova política externa dos EUA". A segunda falsificação foi uma série de circulares publicadas nominalmente por uma organização totalmente inventada chamada "Comitê para a Luta Contra o Imperialismo Americano". O propósito declarado desta organização, que não existia realmente, era alertar o público da América Latina sobre a existência de centenas de agentes da CIA, DoD e do FBI que estavam disfarçados como diplomatas. A terceira falsificação foi uma carta, alegadamente escrita pelo J. Edgar Hoover, diretor da FBI, para Thoman A. Brady, um funcionário da FBI. A carta parabenizava o FBI e a CIA pela execução com sucesso do golpe no Brasil em abril de 1964.

A nota forjada foi mimeografada, no Rio de Janeiro, e distribuída por volta de fevereiro de 1964 num envelope falso, simulando um envelope da USIA e enviado para alguns jornais e políticos brasileiros previamente selecionados. Uma carta foi anexada e era alegadamente de um funcionário da USIA dizendo que o chefe da missão, que era dos EUA, tinha dado sumiço a este documento por que ele continha muitas informações perigosas. Ele revelava que conseguiu reter várias cópias e que estava liberando para a imprensa por que ele estava convencido que o público deveria conhecer a verdade. Ou seja, o escritor anônimo dizia que ele não podia declarar seu verdadeiro nome por que corria o risco de perder o emprego.

No dia 27 de fevereiro de 1964, esta falsificação apareceu no jornal Brasileiro "O Semanário" com a seguinte chamada "Mann começa linha dura nos EUA: Nós não somos sacoleiros para sermos comprados" e um ataque antiamericano acompanhou o texto da nota pública totalmente falsa. Vários dias depois, em 2 de março de 1964, Guerreiro Ramos, um membro do Partido Trabalhista do Brasil da época, durante um discursou, comentou da nova política atribuída ao Thoman Mann e conclui que os EUA tinham, obviamente, retornado a linha dura do John Foster Dulles após a morte do presidente John F. Keneddy. (Ele depois reconheceu o seu erro e explicou que as declarações atribuídas ao Thoman Mann foram baseadas num documento falso). Numa declaração publicada em 3 de março, o embaixador dos EUA do Rio de Janeiro respondeu a várias pessoas do governo do Brasil que Mann nunca propôs tal políticas e que a embaixada nunca emitiu aquelas notas.

[...]

Em julho de 1964, o público da América Latina recebeu uma "prova" adicional das atividades subversivas dos EUA na forma de duas cartas forjadas assinadas pelo J. Edgar Hoover. Ambas foram endereçadas para Thomas Brady, um funcionário do FBI. A primeira, datada de 2 de janeiro de 1961, foi uma mensagem parabenizando, na ocasião, o seu vigésimo aniversário de serviço para o FBI. A intenção desta carta era dar mais credibilidade a uma segunda carta, datada de 15 de abril de 1964, para a mesma pessoa:

Querido Mr. Brady: Eu gostaria de aproveitar este meio para expressas meus sentimentos para cada um dos agentes alocados no Brasil pelos serviços tão bem prestados no "Grande Reparo". A admiração que tenho pela maneira tão dinâmica e eficiente em que esta operação de larga escala foi administrada, numa terra estrangeira e sob condições tão severas, me faz parabenizá-los. O pessoal da CIA fez a sua parte muito bem e conseguiu um grande acordo. Porém, os esforços de nossos agentes foram especialmente valiosos. Eu estou particularmente satisfeito que a nossa participação neste caso permaneceu secreta e que a Administração não precisou dar nenhuma negativa pública. Nós podemos nos orgulhar da parte vital que o FBI está fazendo em proteger a segurança da nossa Nação, até mesmo além das nossas fronteiras. Estou totalmente ciente que nossos agentes fazem diversos sacrifícios pessoais enquanto estão cumprindo suas missões. As moradias no Brasil não são as melhores, mas é encorajador ver a lealdade e a tua contribuição é uma vital, até mesmo glamorosa, para o serviço do teu país. É este o espirito que hoje habilita o Gabinete a gerenciar tão bem todas as suas grandes responsabilidades.

Como o texto deixa claro, a intenção da falsificação era provar que houve envolvimento direto dos EUA na retirada do João Goulart do governo Brasileiro. O serviço da Checoslováquia preferia realmente ter posto toda a culpa na CIA, mas a razão para incluir o FBI na conspiração dos EUA é até engraçada - o serviço não possuía nenhum papel de carta da CIA na época. A falsificação e uma das circulares mencionadas anteriormente apareceu no jornal Argentino "Propositos" em 23 de julho. Foi seguido por uma reação em cadeia nos jornais da América Latina por conta dos jornalistas que começaram a espalhar "a nova onda de atividade subversiva dos EUA".

Jornais onde está carta falsa gerou notícia:
Ultima Hora, Santiago, 24 de Julho de 1964
Vistazo, Santiago, 27 de Julho de 1964
El Siglo, santiago, 28 de Julho de 1964
El Popular, Montevidéu, 28 de Julho de 1964
Prensa Latina, Montevidéu, 28 de Julho de 1964
Marcha, Montevidéu, 31 de Julho de 1964
Epoca, Montevidéu, 1 de Agosto de 1964
Combate, Santiago, 1 de Agosto de 1964
El Siglo, Santiago, 2, 4 e 6 de Agosto de 1964
El dia, Cidade do México, 17 e 20 de Janeiro de 1965
La Gacota, Bogotá, em Março e Abril de 1965
e provavelmente muitos outros





domingo, 18 de janeiro de 2015

O Ataque de Moscou ao Vaticano

Corromper a Igreja é uma das prioridades da KGB.

por Ion Mihai Pacepa
National Review Online, Quinta-feira, 25 de Janeiro de 2007

Original - http://www.nationalreview.com/articles/219739/moscows-assault-vatican/ion-mihai-pacepa
Tradução Original - http://www.midiasemmascara.org/artigos/desinformacao/15631-o-ataque-de-moscou-ao-vaticano.html

A União Soviética jamais se sentiu à vontade tendo que conviver com o Vaticano neste mundo. Descobertas recentes provam que o Kremlin estava disposto a não medir esforços para neutralizar o forte anti-comunismo da Igreja Católica.

Em março de 2006, uma comissão parlamentar italiana concluiu que “além de toda dúvida razoável, os líderes da União Soviética tomaram a iniciativa de eliminar o papa Karol Wojtyla” em retaliação à sua ajuda ao movimento dissidente Solidariedade na Polônia. Em janeiro de 2007, quando documentos mostraram a colaboração do recém-nomeado arcebispo de Warsaw, Stanislaw Wielgus, com a polícia política na época da Polônia comunista, ele admitiu a acusação e se aposentou. No dia seguinte, o prior da Catedral Wawel de Cracóvia, local de sepultamento de reis e rainhas poloneses, se aposentou pela mesma razão. Em seguida, soube-se que Michal Jagosz, um membro do tribunal do Vaticano que estuda a santidade do depois Papa João Paulo II, foi acusado de ser um antigo agente da polícia secreta comunista; de acordo com a mídia polonesa, ele foi recrutado em 1984, antes de deixar a Polônia para assumir um cargo no Vaticano. Atualmente, está prestes a ser publicado um livro que irá revelar a identidade de outros 39 sacerdotes cujos nomes foram descobertos nos arquivos da polícia secreta de Cracóvia, alguns deles bispos atualmente. Além disso, essas revelações parecem ser apenas a ponta do iceberg. Uma comissão especial em breve iniciará uma investigação sobre a atuação de todos os religiosos durante a era comunista, quando, acredita-se, milhares de sacerdotes católicos daquele país colaboraram com a polícia secreta. Isto apenas na Polônia – os arquivos da KGB e os da polícia política nos demais países do antigo bloco soviético ainda precisam ser abertos para investigar as operações contra o Vaticano.

Na minha outra vida, quando estava no centro das operações de guerra de inteligência estrangeira de Moscou, me vi envolvido em um esforço deliberado do Kremlin para manchar a reputação do Vaticano, retratando o Papa Pio XII como um frio simpatizante do nazismo. No fim das contas, a operação não causou nenhum dano duradouro, mas deixou um amargo sabor residual de difícil eliminação. A história jamais foi contada antes.

O ATAQUE À IGREJA

Em fevereiro de 1960, Nikita Khrushchev aprovou um plano ultra-secreto para destruir a autoridade moral do Vaticano na Europa Ocidental. O plano era um criativo fruto de Aleksandr Shelepin, chefe da KGB, e de Aleksey Kirichenko, membro do Politburo soviético responsável por políticas internacionais. Até aquele momento, a KGB tinha lutado contra o seu “inimigo mortal” na Europa Oriental, onde a Santa Sé havia sido cruelmente atacada como um covil de espiões a soldo do imperialismo americano, e os seus representantes haviam sido sumariamente presos sob acusação de espionagem. Agora, Moscou queria desacreditar o Vaticano imputando-lhe a pecha de bastião do nazismo, usando os seus próprios sacerdotes, em seu próprio território.
Eugenio Pacelli, o Papa Pio XII, foi escolhido como alvo prioritário da KGB – a sua encarnação do demônio – pois havia deixado este mundo em 1958. “Mortos não podem se defender” era o slogan da KGB na época. Moscou acabara de ganhar um soco no olho por ter falsamente incriminado e encarcerado um prelado do Vaticano, o cardeal József Mindszenty, primaz da Hungria, em 1948. Durante a revolução húngara de 1956, ele escapara da prisão e pedira asilo na embaixada americana em Budapeste, onde começou escrever as suas memórias. Quando os detalhes de como ele havia sido condenado se tornaram conhecidos de jornalistas ocidentais, foi visto por todos como um santo herói e mártir.

Como Pio XII havia sido núncio papal em Munique e em Berlin quando os nazistas estavam iniciando a sua tentativa de chegar ao poder, a KGB queria retratá-lo como um anti-semita encorajador do Holocausto. O desafio era realizar a operação sem dar o menor sinal do envolvimento do bloco soviético. Todo o trabalho sujo devia ser feito por mãos ocidentais, usando evidências do próprio Vaticano. Isto corrigiria outro erro cometido no caso de Mindszenty, incriminado com documentos soviéticos e húngaros falsificados. (Em 6 de fevereiro de 1949, alguns dias após o julgamento de Mindszenty, Hanna Sulner, a especialista húngara em caligrafia que havia fabricado a “evidência” usada para incriminar o cardeal, fugiu para Viena e exibiu os microfilmes dos “documentos” em que se baseara o julgamento encenado. Hanna demonstrou, em um testemunho minuciosamente detalhado, que os documentos eram todos forjados, produzidos por ela, “alguns pretensamente escritos pelo cardeal, outras exibindo a sua suposta assinatura”.)

Para evitar outra catástrofe como a de Mindszently, a KGB precisava de alguns documentos originais do Vaticano, mesmo remotamente ligados a Pio XII, os quais os seus especialistas em desinformação poderiam modificar levemente e projetar “na luz apropriada” para provar as “verdadeiras cores” do Papa. A KGB, entretanto, não tinha acesso aos arquivos do Vaticano, e aí entrou o meu DIE, o serviço romeno de inteligência estrangeira. O novo chefe do serviço de inteligência estrangeira soviético, general Aleksandr Sakharovsky, havia criado o DIE em 1949 e havia sido até pouco tempo antes o nosso conselheiro-chefe soviético; o DIE, ele sabia, estava em excelente posição para contactar o Vaticano e obter aprovação para pesquisa em seus arquivos. Em 1959, quando fui nomeado para a Alemanha Oriental no disfarçado cargo de representante-chefe da Missão Romena, havia conduzido uma “troca de espiões” na qual dois oficiais do DIE (coronel Gheorghe Horobet e major Nicolae Ciuciulin), pegos com em flagrante na Alemanha Ocidental, foram trocados pelo bispo católico Augustin Pacha, preso pela KGB sob uma espúria acusação de espionagem, e que finalmente retornava ao Vaticano via Alemanha Ocidental.

INFILTRAÇÃO NO VATICANO

“Seat 12” era o codinome dado a essa operação contra Pio XII e eu me tornei o seu ponta-de-lança romeno. Para facilitar o meu trabalho, Sakharovsky me autorizou a informar (falsamente) o Vaticano que a Romênia estava pronta para restabelecer as relações cortadas com a Santa Sé, em troca ao acesso aos seus arquivos e um empréstimo sem juros de um bilhão de dólares por 25 anos. (As relações da Romênia com o Vaticano haviam sido cortadas em 1951, quando Moscou acusou a nunciatura do Vaticano na Romênia de ser um front da CIA disfarçado e fechou os seus escritórios. Os edifícios da nunciatura em Bucareste haviam sido revertidos ao DIE e hoje abrigam uma escola de idioma estrangeiro.) O acesso aos arquivos papais, eu havia dito ao Vaticano, era necessário para encontrar raízes históricas que ajudariam o governo romeno a justificar publicamente a sua mudança de atitude em relação à Santa Sé. O dinheiro – bilhão de dólares (não, isto não é erro de digitação) -, me disseram, havia sido introduzido no jogo para tornar a alegada mudança de opinião romena mais plausível. “Se há uma coisa que estes monges entendem é de dinheiro” disse Sakharovsky.

A minha atuação na troca do bispo Pacha pelos dois oficiais do DIE realmente abriram as portas para mim. Um mês após ter recebido as instruções da KGB, fiz meu primeiro contato com um representante do Vaticano. Por razões de segredo, o encontro – e a maioria das reuniões seguintes – ocorreu em um hotel em Genebra, Suíça. Fui apresentado a um “membro influente do corpo diplomático” que, me disseram, havia começado a carreira trabalhando nos arquivos do Vaticano. O seu nome era Agostino Casaroli, e eu logo perceberia a sua grande influência. Imediatamente, este monsenhor deu-me acesso aos arquivos do Vaticano, e logo três jovens oficiais do DIE disfarçados de sacerdotes romenos estavam mergulhados nos arquivos papais. Casaroli também concordou “em princípio” com o pedido de Bucareste pelo empréstimo sem juros, mas disse que o Vaticano desejava impor certas condições. (Até 1978, quando deixei a Romênia para sempre, eu ainda estava negociando o empréstimo, diminuído então para 200 milhões de dólares.)

Durante os anos 1960-62, o DIE conseguiu furtar dos Arquivos do Vaticano e da Biblioteca Apostólica centenas de documentos ligados, de alguma forma, ao Papa Pio XII. Tudo era imediatamente enviado para a KGB por um correio especial. Na realidade, nenhum material incriminador contra o Pontífice emergiu de todos aqueles documentos secretamente fotografados. A maior parte eram cópias de cartas pessoais e transcrições de reuniões e discursos, tudo formatado na rotineira linguagem diplomática esperada. A KGB, entretanto, continuava pedindo mais documentos. E nós enviávamos mais.

A KGB PRODUZ UMA PEÇA

Em 1963, o general Ivan Agayants, o famoso chefe do departamento de desinformação da KGB, foi a Bucareste para nos agradecer pela ajuda. Disse-nos que a operação “Seat-12” havia se materializado em uma poderosa peça de ataque contra o Papa Pio XII intitulada The Deputy (O Representante), uma referência indireta ao Papa como representante de Cristo na terra. Agayants levou o crédito pelo formato da peça, e nos disse que ela tinha extensos apêndices de documentos para lhe dar sustentação, anexados pelos seus especialistas com a ajuda de documentos furtados por nós do Vaticano. Agayants também nos disse que o produtor da The Deputy, Erwin Piscator, era um comunista devoto com um relacionamento de longa data com Moscou. Em 1929, ele havia fundado o Teatro do Proletariado em Berlim, e em seguida procurado asilo político na União Soviética quando Hitler chegou ao poder, e, poucos anos depois, “emigrou” para os EUA. Em 1962, Piscator voltou a Berlim Ocidental para produzir The Deputy.

Em todos os meus anos na Romênia, sempre lidei com os meus chefes da KGB com um certo cuidado pois eles costumavam manejar os acontecimentos de forma a fazer a inteligência soviética a mãe e o pai de tudo. Mas eu tinha razões para acreditar na declaração auto-elogiosa de Agayants. Ele era uma lenda viva no campo da desinformação. Em 1943, morando no Irã, Agayants lançara o relatório de desinformação segundo o qual Hitler havia montado uma equipe especial para sequestrar o presidente Franklin Roosevelt da embaixada americana em Teerã durante a Conferência de Cúpula Aliada a ser realizada lá. Por isso, Roosevelt concordou em montar o seu quartel-general em uma vila sob a “segurança” do complexo da Embaixada Soviética, protegida por uma grande unidade militar.

Todo o pessoal soviético designado para aquela vila era composto por oficiais de inteligência disfarçados, com domínio do idioma inglês, mas, com poucas exceções, eles mantinham isto em segredo para poder escutar as conversas. Mesmo com as capacidades técnicas limitadas da época, Agayants conseguiu proporcionar a Stalin, de hora em hora, relatórios de acompanhamento sobre os hóspedes americanos e britânicos. Isto ajudou Stalin a obter o acordo tácito de Roosevelt para deixá-lo manter sob domínio os países bálticos e os demais territórios ocupados pela União Soviética em 1939-40. Agayants também levou o crédito por ter induzido Roosevelt a usar o familiar tratamento “Tio Joe” para Stalin naquele encontro. De acordo com o relato de Sakharovsky para nós, Stalin estava mais orgulhoso disso até mesmo do que dos territórios ganhos. “O aleijado é meu!” teria exultado.

Exatamente um ano antes do lançamento da peça The Deputy, Agayants realizou outra ação bem sucedida. Inventou um manuscrito concebido para convencer o Ocidente de que, no fundo, o Kremlin pensava bem dos judeus; isto foi publicado na Europa Ocidental, com muito sucesso entre o público, na forma de um livro intitulado Notes for a Journal. O manuscrito foi abribuído a Maxim Litvinov, nascido Meir Walach, o aposentado comissário soviético para relações exteriores, demitido em 1939 quando Stalin purgou o seu aparato diplomático de judeus em preparação para a assinatura do pacto de “não-agressão” com Hitler. (O Pacto de Nâo-Agressão Stalin-Hitler foi assinado em 23 de agosto de 1939 em Moscou. Continha um Protocolo secreto dividindo a Polônia entre os dois signatários e dava aos soviéticos autoridade sobre Estônia, Letônia, Finlândia, Bessarábia e Bucovina do Norte.) Este livro de Agayants estava tão perfeitamente falsificado que o mais proeminente estudioso da Rússia Soviética, o historiador Edward Hallet Carr, ficou totalmente convencido da sua autenticidade e até escreveu uma introdução para ele. (Carr havia escrito uma História da Rússia Soviética, em 10 volumes.)

A peça The Deputy foi lançada em 1963 como um trabalho de um desconhecido alemão oriental chamado Rolf Hochhuth, sob o título Der Stellvertreter, Ein christliches Trauerspiel (The Deputy, a Christian Tragedy). A tese central era que Pio XII havia apoiado Hitler e o encorajara a ir adiante com o Holocausto Judeu. O livro acendeu imediatamente uma gigantesca controvérsia acerca de Pio XII, descrito como um homem frio e sem coração, mais preocupado com as propriedades do Vaticano do que com o destino das vítimas de Hitler. O texto original apresentava uma peça de oito horas, apoiada por cerca de 40 a 80 páginas (dependendo da edição) do que Hochhuth chamou de “documentação histórica”. Em um artigo de jornal publicado na Alemanha em 1963, Hochhuth defende a sua representação de Pio XII dizendo: “Os fatos estão aí – quarenta páginas repletas de documentos no apêndice da minha peça.” Em uma entrevista de rádio em Nova Iorque em 1964, quando The Deputy estreiou naquela cidade, Hochhuth disse “Eu considerei necessário adicionar à peça um apêndice histórico, de cinquenta a oitenta páginas (dependendo do tamanho da impressão)”. Na edição original, o apêndice é intitulado Historische Streiflichter (fragmentos históricos). The Deputy foi traduzida para cerca de 20 idiomais, drasticamente cortada e normalmente sem o apêndice.

Antes de escrever The Deputy, Hochhuth, que não tinha diploma secundário (Abitur), estava trabalhando em diversos trabalhos desimportantes para o grupo editorial Bertelsmann. Em entrevista, declarou que em 1959 obtivera uma licença de ausência de trabalho e fôra a Roma, onde passara três meses conversando e, em seguida, escrevento o primeiro rascunho da peça, e onde havia proposto uma “série de questões” a um bispo cujo nome recusou a revelar. Até parece! Quase na mesma época, eu costumava visitar o Vaticano regularmente como representante credenciado de um chefe de estado, e nunca encontrei nenhum bispo tagarela para conversar no corredor comigo – e não foi por falta de tentativa. Os oficiais ilegais do DIE infiltrados por nós no Vaticano também encontraram quase as mesmas dificuldades insuperáveis para penetrar nos arquivos secretos do Vaticano, mesmo com o inexpugnável disfarce de sacerdote.

Nos meus velhos tempos do DIE, quando podia pedir ao meu chefe pessoal, general Nicolae Ceausescu (o irmão do ditador) um relatório detalhado sobre algum subordinado, ele sempre perguntava “Para promover ou rebaixar?” (NT: For promotion or demotion?, no original.) Durante os seus primeiros dez anos de vida, The Deputy tendeu na direção do rebaixamento do Papa. Gerou uma enxurrada de livros e artigos, alguns acusando, outros defendendo o pontífice. Alguns chegaram até a jogar a culpa pelas atrocidades em Auschwitz nas costas do Papa, outros meticulosamente reduziram os argumentos de Hochhuth a pó, mas todos contribuíram para a enorme atenção recebida na época por esta peça trapaceira. Hoje, muitas pessoas que jamais ouviram falar na The Deputy estão sinceramente convencidas que Pio XII foi um homem frio e malvado que odiava os judeus e ajudou Hitler a eliminá-los. Como Yury Andropov – chefe da KGB e inigualável mestre da enganação soviética – costumava me dizer, as pessoas são mais propensas a acreditar em sujidade do que em santidade.

CALÚNIAS ENFRAQUECIDAS

Em meados da década de 1970, The Deputy começou a perder força. Em 1974, Andropov admitiu para nós que, se soubéssemos antes o que sabíamos então, jamais teríamos ido atrás do Papa Pio XII. Referia-se a informações recentemente liberadas mostrando que Hitler, longe de ser amigo de Pio XII, na verdade tramou contra ele.

Poucos dias antes da admissão de Andropov, o antigo comandante supremo do esquadrão da SS alemã (Schutztaffel) na Itália durante a Segunda Guerra Mundial, general Friedrich Otto Wolff, havia sido solto da cadeia e confessado que em 1943 Hitler havia lhe ordenado que raptasse o Papa Pio XII do Vaticano. Aquela ordem havia sido tão confidencial que jamais foi trazida à tona após a guerra em nenhum arquivo nazista. Nem surgiu em nenhuma das inúmeras prestações de contas de oficiais da Gestapo e SS conduzidas pelos Aliados vitoriosos. Segundo a sua confissão, Wolff teria replicado a Hitler que a ordem levaria seis semanas para ser cumprida. Hitler, que culpava o Papa pela derrota do ditador italiano Benito Mussolini, queria a ordem cumprida imediatamente. Por fim, Wolff persuadiu Hitler que haveria uma forte reação negativa se o plano fôsse implementado, e o Führer o abandonou.

Também em 1974, o cardeal Mindszenty publicou o seu livro Memoirs, no qual descreve em dolorosos detalhes como foi falsamente incriminado na Hungria comunista. Com provas baseadas em documentos fabricados, ele foi acusado de “traição, mal uso de moeda estrangeira e conspiração”, ofensas “todas passíveis de pena de morte ou prisão perpétua”. Ele também desceve como a sua falsa “confissão” ganhou então vida própria. “Qualquer um, parecia para mim, podia ter reconhecido imediatamente este documento como uma falsificação grosseira, pois era o produto de um trabalho malfeito e de uma mente inculta”, escreveu o cardeal. “Mas quando depois eu li os livros, jornais e revistas estrangeiros que lidaram com o meu caso e comentaram a minha “confissão”, percebi que o público deve ter concluído que a “confissão” havia sido realmente feita por mim, apesar de ter sido feita em estado semiconsciente e sob a influência de lavagem cerebral… o fato de a polícia ter publicado um documento fabricado por ela mesma parecia muito descarado para se acreditar”. Além de tudo isso, Hanna Sulner, a especialista em caligrafia húngara usada incriminar o cardeal, havia escapado para Viena, e confirmou ter forjado a “confissão” de Mindszenty.

Alguns anos depois, o Papa João Paulo II iniciou o processo de beatificação de Pio XII, e testemunhas do mundo inteiro provaram, de modo constrangedor para os adversários, que Pio XII era um inimigo, não um amigo, de Hitler. Israel Zoller, o rabi-chefe de Roma entre 1943-44, quando Hitler tomou a cidade, devotou um capítulo inteiro das suas memórias louvando a liderança de Pio XII. “O Santo Padre enviou uma carta para ser entregue em mãos aos bispos instruindo-os para levantar o claustro de conventos e monastérios, para poderem se tornar refúgio para os judeus. Sei de um convento onde as Irmãs dormiram no porão, emprestando as suas camas para os refugiados judeus”. Em 25 de julho de 1944, Zoller foi recebido pelo Papa Pio XII. Notas tomadas pelo secretário de estado do Vaticano, Giovanni Battista Montini (que se tornaria o Papa Paulo VI) mostram a gratidão do rabi Zoller ao Santo Padre por toda a sua ajuda para salvar a comunidade judaica em Roma – e os seus agradecimentos foram transmitidos pelo rádio. Em 13 de fevereiro de 1945, o rabi Zoller foi batizado pelo bispo auxiliar de Roma, Luigi Traglia, na igreja de Santa Maria degli Angeli. Em agradecimento a Pio XII, Zoller tomou o nome cristão de Eugênio (o nome do Papa). Um ano depois, a esposa e a filha de Zoller também foram batizadas.

David G. Dalin, em The Myth of Hitler´s Pope: How Pope Pius XII Rescued Jews From the Nazis, publicado poucos meses atrás, compilou provas indiscutíveis da amizade entre Eugenio Pacelli e os judeus, iniciada bem antes dele ser papa. No começo da Segunda Guerra Mundial, a primeira encíclica do Papa Pio XII foi tão anti-Hitler que a Real Força Aérea e a força aérea francesa lançaram 88 mil cópias do documento sobre a Alemanha.

Ao longo dos 16 últimos anos, a liberdade de religião foi restaurada na Rússia e uma nova geração vem lutando para desenvolver uma nova identidade nacional. Só podemos esperar que o presidente Vladimir Putin decida abrir os arquivos da KGB e os coloque sobre a mesa para que todos possam ver como os comunistas caluniaram um dos mais importantes Papas do último século.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Red Cocaine - Capítulo 4 - Khrushchev Instrui os Países Satélites

Por favor, avisem-me caso encontrem qualquer erro de tradução ou de português.

Ver demais capítulos.
Red Cocaine - Capítulo 4 - Khrushchev Instrui os Países Satélite


Em 1962, Khrushchev formalmente entendeu as operações Soviéticas com narcóticos para os satélites do Leste Europeu. Os líderes estratégicos (Alto Escalão do Secretariado, Primeiros Ministros, Ministros de Defesa, Chefes de Gabinete e assistente especiais) dos principais satélites foram convocados para participar de uma reunião secreta em Moscou para discutir a recessão econômica das economias socialistas. Romênia, Albânia e a Iugoslávia não se apresentaram. Sejna era um dos oficiais que estavam presentes. Os oficiais Soviéticos do mais alto nível hierárquico participaram da reunião incluindo o Nikita Khrushchev, Leonid Brezhnev, Mikhail Suslov e Andrei Kirilenko. Foi nesta reunião que Khrushchev formalmente apresentou a estratégia Soviética: “Mao Tse-tung e os Chineses são muito espertos”, ele começou, se referindo aos negócios com as drogas, “eles são muito criativos e muito eficientes também. Porque devemos deixar os Chineses trabalharem sozinhos neste mercado mundial”, ele perguntou, e rapidamente respondeu a sua própria pergunta; “Os Chineses são bons, mas o serviço de inteligência do Bloco Soviético possui um nível de organização muito maior e deve se mover o mais rápido possível para usar tanto as drogas como os narcóticos tanto para rachar a sociedade capitalista como para financiar as atividades revolucionárias”.


Khrushchev então começou uma discussão dos vários benefícios que podiam derivar deste negócio. Proveria uma ótima renda e ainda poderia servir como fonte para o muito-desejado câmbio financeiro para financiar as operações de inteligência. Além disso, serviria para sabotar tanto a saúde como a moral dos trabalhadores Americanos. Como pessoas viciadas em drogas não são confiáveis em crises e emergências, todo esse negócio com as drogas “enfraqueceria o fator humano numa situação de defesa”.

Khrushchev também levou em consideração o impacto na educação no longo prazo. As escolas Americanas sempre eram um dos alvos de mais alta prioridade, porque eram nestes lugares que os futuros líderes na burguesia poderiam ser encontrados. Um outro alvo de maior importância para o Khrushchev era a ética trabalhista dos Americanos. Assim como o orgulho e a lealdade, todos estes seriam sabotados pelo uso das drogas. Finalmente, as drogas e os narcóticos levariam a uma queda na influência da religião e, ele adicionou, poderia até mesmo criar o caos.

“Quando nós discutimos esta estratégia”, Khrushchev conclui, “alguns ficaram preocupados que essa operação poderia ser considerada imoral. Porém devemos declarar categoricamente”, ele enfatizou, “tudo aquilo que acelerar a destruição do capitalismo é moral”[1].

Somente algumas poucas perguntas foram feitas pelos presentes durante a reunião. Janos Kadar, o Primeiro Secretário da Hungria, expressou sua preocupação que as operações com as drogas não deveria interferir no progresso conseguido durante a coexistência pacífica. Ele estava se referindo a assistência econômica e tecnológica que começou a fluir do Oeste. Após isso, ele sugeriu que os países do Terceiro Mundo que não eram tidos como suspeitos pelos Estados Unidos fossem utilizados para pôr a operação em prática.

Essa tática, na verdade, já estava sendo utilizada para manter uma distância segura entre os países do Bloco Soviético e de fato os que estavam trabalhando nas operações com narcóticos. Por toda a América Latina, por exemplo, enquanto agentes da inteligência do Bloco Soviético exerciam um certo controle e davam as direções de maneiras gerais, as pessoas nativas destes países estavam pegando no pesado de fato das operações. Está técnica também pode ser vista sendo utilizada em respeito as operações do Bloco Soviético quanto a Europa Ocidental. Por exemplo, a Agência Americana Contra Drogas preparou um relatório sobre o papel da Bulgária no tráfico internacional de drogas num Congresso em 1984. Várias fontes, todas consistentes, foram referenciadas no relatório, que cobria as operações entre 1970 e 1984.

Uma das organizações que foram destacadas neste relatório foi a KINTEX, uma firma Búlgara de importação e exportação que foi fundada em 1968. KINTEX foi gerenciada pela polícia secreta Búlgara e agia “sobre ordens secretas de Moscou”. KINTEX foi estabelecida, segundos as fontes do relatório, principalmente para prover um mecanismo para utilizar estrangeiros dentro da Bulgária para fabricar e enviar narcóticos para a Europa Ocidental e munição para o Oriente Médio. Os estrangeiros eram Turcos, Sírios e Jordanianos. As reuniões de coordenação incluíam traficantes da Grécia, Itália, Iraque e Irã. Enquanto a Bulgária foi identificada no início da década de 1970 num estudo secreto da CIA como “o novo centro para distribuição do tráfico de narcóticos e de armas”, todos os dados do relatório da DEA (Agência Americana Contra Drogas) na verdade se refere a estrangeiros trabalhando dentro da Bulgária. A resposta do governo Búlgaro para as reclamações Americanas era sempre negar qualquer envolvimento: a presença de estrangeiros dentro do solo Búlgaro não constituía nenhum crime e nenhum Búlgaro tanto dentro do solo Búlgaro quando fora, fora incriminado.

Outro líder que discursou na reunião em Moscou foi Walter Ulbricht, o Primeiro Secretário da República Democrática da Alemanha. Ele aproveitou a oportunidade para fazer pressão por um envolvimento maior da Alemanha. Naquela época, os Alemães não possuíam permissão para conduzir suas próprias estratégias de inteligência e por isso, Ulbricht enfatizava, a Alemanha necessitava de ajuda para explorar seus recursos na África, no Oriente Médio e na América Latina. Inteligência Estratégica, ou seja, sabotagem, terrorismo, trapaça e espionagem, foi exatamente onde a ofensiva com os narcóticos começou e onde ela se sentia em casa. Em 1964, a Alemanha Oriental recebeu a permissão de começar as suas próprias operações de Inteligência Estratégica.

Mais tarde, neste mesmo dia, já sob efeito de alguns drinques, Khrushchev cutucou o cotovelo do Sejna de maneira brincalhona, e com brilho em seus olhos, ele revelou o nome secreto de toda a operação Soviética com tráfico de drogas, “Druzhba Narodov”, o quê, numa simples tradução, significa “A Amizade das Nações”. Esconder a real intenção das operações com um trocadilho era puro Khrushchev.

Esta reunião em Moscou foi única. A estratégica Soviética foi considerada extremamente sensível e foi associada a ela o mais alto nível de classificação de segurança. Pessoas sem a absoluta necessidade de saber detalhes da operação, não deveriam saber absolutamente nada sobre a operação. Seguindo a reunião, que foi o início oficial da operação, com pouquíssimas exceções, todas as coordenações e cooperações foram tratadas de maneira bilateral apenas.

Os líderes dos satélites retornaram aos seus respectivos países a procederam com os seus respectivos planos individuais no meio do maior esquema de segredo possível. Sejna descreveu a maneira como os planos da Checoslováquia foram desenvolvidos, resumido para o Conselho de Defesa, aprovado e depois implementado. Esta descrição provê uma visão muito interessante de como os planos operacionais contendo informações altamente sensíveis eram desenvolvidos, controlados e mantidos em segredo. A tarefa de desenvolver o plano era designada para cinco pessoas, cada um do Departamento de Órgãos Administrativos, inteligência civil, inteligência militar, do Departamento de Assuntos Estrangeiros e da Administração de Saúde Militar. Sejna era o encarregado da Secretaria do Conselho de Defesa. As cinco pessoas, mais um cozinheiro do secretariado do Sejna, foram isolados numa vila em Rusveltova Nº 1, que por acaso foi onde Fidel Castro ficou enquanto estava visitando a cidade de Praga. O trabalho deles foi monitorado pelo Chefe dos Conselheiro Soviéticos da Zs e pelo Jiri Rudolf e pelo Vaclav Havranek, que eram os oficiais do Departamento de Órgãos Administrativos responsáveis pela inteligência e a contra inteligência militar. Apenas outros cinco oficiais Checos tinham acesso a Vila: o Ministro do Interior, o Ministro da Defesa, o Chefe do Gabinete, o Chefe da Segunda Administração (inteligência civil) e Sejna. Depois que este grupo conseguiu finalizar o plano geral, as únicas pessoas que tiveram acesso a este plano foram os sete membros do Conselho de Defesa.

Quando o plano de operação com os narcóticos estava finalizado, ele foi considerado mais sensível até mesmo do que os planos anuais da inteligência. Nove cópias foram feitas e envelopadas e depois enviados para o Conselho de Defesa, onde eles foram abertos e examinados antes da votação para sua aprovação. O Ministro da Defesa e o Ministro de Assuntos Interiores apresentaram conjuntamente o plano para o Conselho de Defesa. O plano levava em conta pesquisa, desenvolvimento, a influência das drogas nos seres humanos, testes, produção, distribuição, como o dinheiro seria lidado no projeto, como os lucros seria utilizado e os indivíduos que teriam as responsabilidades particulares. Durante a apresentação, o Ministro de Assuntos Interiores, Rudolph Barak explicou que “Este projeto não serviria apenas para destruir a sociedade Ocidental, mas este projeto vai fazer a sociedade Ocidental ainda por cima nos pagar por isso”. Antonin Novotny, Primeiro Secretário e Presidente do Conselho de Defesa perguntou o “quanto ganharíamos com isso?”, e Barak respondeu: “O suficiente para financiar completamente o serviço de inteligência da Checoslováquia”.

Assim que a discussão terminou, nem mesmo esperando o fim da reunião, como normalmente era feito, Sejna recolheu todas as cópias e fechou todos os envelopes. Todas, menos três cópias, foram totalmente destruídas. Estas três cópias foram enviadas para a inteligência militar (Zs), para a Segunda Administração do Ministério de Assuntos Interiores e para os arquivos do Conselho de Defesa, que era onde o Sejna fazia parte do secretariado. Nenhuma instrução por escrito para pôr o plano em operação foi gerada. As principais pessoas de cada departamento, de cada agência que possuía alguma tarefa específica nesta fase do projeto ia a um dos três escritórios que possuíam as cópias do projeto e podiam ler apenas o mínimo necessário. Por exemplo, para o desenvolvimento científico e produção, os chefes do Rear Services[2] e da Administração Médica vieram de maneira independente ao escritório do Sejna para ler as suas partes pertinentes do plano. O trabalho do Sejna era garantir que cada oficial entendeu perfeitamente a sua responsabilidade. O oficial era então obrigado a assinar um termo de responsabilidade que entendeu perfeitamente a ordem, e depois disso o oficial ia embora.

Esse processo foi aplicado até mesmo ao Ministro de Defesa. Todas as ordens eram verbais. Relatórios com o progresso deviam ser enviados ao Sejna em até seis meses. Sejna em pessoa agregava todos os relatórios e apresentava os resultados para o Conselho de Defesa.

Um ano depois, em 1963, Khrushchev, descontente com a velocidade da operação, direcionou o Major General Nikolai Savinkin, o chefe-substituto  do Departamento de Órgãos Administrativos do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética (ele viria a se tornar o Chefe em 1964 depois da morte do General Mironov num acidente de avião), para visitar cada um dos países satélites e Cuba pessoalmente para preparar um plano detalhado de como poderia acelerar e coordenar a operação com narcóticos. O Departamento de Órgãos Administrativos é um dos dois ou três principais departamentos do Comitê Central. Ele controla o Ministério da Defesa, o Ministério de Assuntos Interiores (KGB) e o Ministério da Justiça. Era exatamente este o departamento que direcionava a operação “Druzhba Naradov”. Outras organizações que participaram serão descritas no próximo capítulo.

O plano de Savinkin foi aprovado pelo Conselho Soviético de Defesa e as diretivas foram enviados aos países satélites. Estas diretivas, que chegaram através do Sejna como o Secretário do Conselho Checo de Defesa e o Chefe do Gabinete do Ministério da Defesa, cobria uma larga variedade de ações: pesquisa, produção, organização do transporte, organização das cooperações através dos países satélites em várias regiões do mundo, a necessidade da cooperação em ajudar Cuba a infiltrar todas as operações da América Latina e como esta cooperação deveria ser feita, nomeava as pessoas que deveriam, em diversos países, ajudar na distribuição, na propaganda e na desinformação. Também foram recebidas instruções de como e quais instituições financeiras deveriam participar das transferências e lavagem de dinheiro. No caso específico da Checoslováquia, pelo menos quinze bancos diferentes em nove países (incluindo Singapura, Viena, Argentina e Holanda) foram identificados. O banco Soviético em Londres foi se tornando cada vez mais envolvido nas transferências dos lucros do tráfico.

As instruções de propaganda e desinformação eram especificamente interessantes. Propaganda, desinformação e trapaça são desenvolvidas para ajudar o plano de trapaça geral. Nas operações com drogas e narcóticos, a essência da propaganda e da desinformação era que a culpa do tráfico e do uso de drogas deveria cair sobre a “sociedade”. Adicionalmente, e suportando a essência básica do plano, as provas de corrupção deveriam ser liberadas para desmerecer certos indivíduos e organizações consideradas hostis para os interesses Soviéticos. Haviam duas principais campanhas de propaganda – uma direcionada contra a juventude e outra direcionada contra a população como um todo. Estas campanhas envolveram o Departamento de Propagandas Especiais, o Departamento de propaganda e o Departamento de Assuntos Internacionais, com uma coordenação central dentro do Departamento de Órgãos Administrativos.

A estratégia básica para a propaganda e a trapaça foi desenvolvida primeiramente em 1961 ou 1962 pelo General Soviético Kalashnik, o Chefe-Substituto do Principal Administração Política, o guardião ideológico de todo o estabelecimento militar Soviético. Kalashnik era o chefe ideológico da Secretaria Principal de Administração Política. Sejna relembrou as simples instruções do Kalashnik: “Nossa propaganda deve ser sempre direcionada para os nossos inimigos, não para os nossos amigos”. A palavra “amigo” significava, na verdade drogas e narcóticos. Propaganda e trapaça deveriam ser utilizadas para tirar o foco da atenção das drogas e dos narcóticos, especialmente em relação as classes média e alta, que eram um dos alvos da propaganda, e mudar o foco da atenção das pessoas para os problemas da guerra nuclear, a guerra do Vietnã e o Antiamericanismo.

Estas instruções de propaganda foram estendidas em 1964 numa carta assinada pelo Leonid Brezhnev que foi muito discutida numa reunião no Conselho de Defesa da Checoslováquia. A carta mandava que os dados referentes ao tráfico de drogas e narcóticos dos Chineses deveriam ser divulgados ao público, para assim anunciar ao mundo o papel da China como a fonte de todo o tráfico ilegal e assim desviar a atenção das operações Soviéticas. (Um dos principais artigos escritos com este propósito apareceu no Pravda no dia 13 de Setembro de 1964. Foi escrito pelo V. Ovchinnikov e foi intitulado “Os Traficantes”).

Em setembro de 1963 os principais líderes (Primeiros Secretários, Primeiros Ministros, Ministros da Defesa, Ministros de Assuntos Interiores e uma equipe selecionada de cada um destes, num total de 15 pessoas de cada país, exceto Romênia, Albânia e Iugoslávia, que não se apresentaram) se encontraram em Moscou para a conferência anual sobre o plano e as táticas que deveriam ser postas em prática no ano vindouro. A diplomacia, a inteligência e as partes envolvidas – ou seja, o processo integrado – para o próximo ano, era revista pelos líderes Soviéticos.

O principal palestrante era o Mikhail Suslov, o chefe ideológico do Partido Comunista e um dos principais oficiais no desenvolvimento dos planos estratégicos. Na discussão sobre as drogas, Suslov começou apontando que a decisão que foi tomada sobre o uso do tráfico de drogas e narcóticos foi a melhor decisão que podia ter sido tomada. Como os Soviéticos tinham levantado, na década de 1950, que a América Latina era extremamente dependente da burguesia, especialmente dos Estados Unidos, os Soviéticos perceberam que com o uso das drogas isso poderia mudar: os países da América Latina poderiam todos depender da União Soviética. O principal instrumento para isso deveria ser tanto as drogas como outros modos de corrupção, prática que os Soviéticos concluíram que já estava espalhado por todas as Américas.

Os Soviéticos se referiam a este movimento revolucionário na América Latina como a Segunda Libertação. A Primeira Libertação foi a libertação tanto de Portugal como da Espanha. A Segunda Libertação seria a libertação dos Estados Unidos e da burguesia. A Terceira Libertação seria a transição para o Comunismo.

Suslov explicou que era necessário desarmar os anticomunistas e todos os amigos dos Estados Unidos antes da Segunda Libertação acontecer. Os Soviéticos acreditavam que a burguesia corrompida já tinha aceita a ideia da revolução, o que na verdade era pura trapaça induzida pelos Soviéticos. A estratégia utilizada para encorajar a aceitação da ideia de revolução foi de argumentar que os países Latinos Americanos estavam destinados a passar por uma série de estágios revolucionários, em que as mudanças que ocorreriam seriam benéficas. Nos primeiros estágios, não haveria, pelo controle dos Soviéticos, nenhuma menção ao socialismo ou sequer utilização de frases socialistas – para não assustar as pessoas com o conceito da revolução.

Os Soviéticos listaram os cinco fatores que se mostraram mais efetivos para acelerar o processo revolucionário na América Latina:

1.       A igualdade militar entre Estados Unidos e a União Soviética: A União Soviética deveria ser forte o suficiente para impedir a interferência dos Estados Unidos antes que a revolução possa iniciar.

2.       A bancarrota do colonialismo: Enfraquecer e por último romper os laços da América Latina com os Estados Unidos através da propaganda de como a exploração e a impropriedade das políticas colonialistas, além protecionismo, que andava junto do colonialismo, atrasavam a América Latina.

3.       Organização Ideológica e de suprimentos para as forças de liberação: Uma melhor organização e uma ofensiva ideológica unificada eram requisitos para as forças de liberação. O movimento acabou por se separar demais na época de Stalin. Unidade ideológica era uma necessidade e a assistência de suprimentos – dinheiro, armas, treinamento, organização - precisava melhorar e muito na América latina.

4.       A derrota dos Estados Unidos no Vietnã: Era necessário separar os Estados Unidos dentro de casa e tornar extremamente difícil para os Estados Unidos se envolverem em guerras fora de seu território novamente. Também era fundamental que as forças nacionalistas (pró-Estados Unidos) reconheçam que os Estados Unidos não podem mais ser confiados como aliados contra o processo revolucionário.

5.       A desmoralização dos Estados Unidos e de seus vizinhos tanto ao sul como ao norte: As drogas eram o principal instrumento para trazer esta desmoralização – a desmoralização pelas drogas deveria ser referida como a “Epidemia Rosa”. Os Soviéticos acreditavam que quando a “Epidemia Rosa” cobrisse toda a América do Norte e do Sul, a situação estaria altamente satisfatória para a revolução.

Suslov reviu a situação da América Latina, utilizando os dados recolhidos pela inteligência Soviética, pelos partidos Comunistas locais, por Cuba e pelos agentes da inteligência do Pacto de Warsaw que já tinham penetrado nas operações com drogas na América Latina. Fazendo especiais referências ao Paraguai, Jamaica, El Salvador, Guatemala, Honduras e México, Suslov declarou que 70% dos burocratas da América Latina já estavam ligados com (ou seja, corrompidos pelas) operações com drogas. “No México”, ele disse, “80% dos burocratas estavam ligados com as drogas e envolvidos em algum nível de corrupção. Na América Latina, 65% dos padres católicos usavam drogas”, ele disse. Padres Católicos eram alvos de primeira linha na estratégia Soviética na América Latina.

Quatro anos depois, numa reunião em 1967, Boris Ponomarev explicou para os oficiais da Checoslováquia que segundo as estimativas Soviéticas, 80% dos padres Da América latina eram antiamericanos, e um pouco mais do que 60% estavam inclinados à esquerda. Esta estatística, particularmente, era bastante influenciada pelos padres mais novos, o que os Soviéticos acreditavam que teriam grande influência em mais ou menos 20 anos. Boris Ponomarev avançou com três razões para trabalhar com os padres mais novos: eles ajudariam a revolução a avançar, eles usariam a igreja para distribuir as drogas, e eles seriam utilizados para ganhar mais informações sobre as redes locais de distribuição de drogas.

Porém, voltando a 1963; depois de rever as estatísticas do negócio de drogas, Suslov discutiu dois grupos especiais os quais as drogas deveriam ser usadas contra: o primeiro eram os líderes da burguesia; o segundo era o grupo referido como o “lumpen proletariado” – os desempregados que ou se tornavam prostitutas ou marginais para sobreviver. Um outro termo utilizado para descrever este grupo é “downtrodden proletariat”. Como Mikhail Suslov explicou, “este grupo é particularmente suscetível a ser seduzido pelas drogas. Isso tudo era pelo bem, pois iria ajudar a guerra revolucionária a destruir este grupo, pois não passavam de inúteis e um peso a ser carregado. Seus membros não querem trabalhar. Eles são os principais consumidores de drogas e devem ser destruídos. A principal tática revolucionária é preparar a elite revolucionária e estes proletários não fazem parte desta elite”.

Para avançar o negócio das drogas, Mikhail Suslov também enfatizou quatro pontos:

1.       Utilizar Cuba para ajudar na distribuição das drogas;

2.       Possuir total certeza que pessoal escolhido está totalmente limpo quanto a segurança antes de envolve-los nas operações de tráfico de drogas;

3.       Nos Partidos Comunistas locais, somente o Primeiro Secretário deveria estar ao par das operações envolvendo drogas. Os Partidos Comunistas deveriam ser mantidos a uma distância segura das operações com drogas por dois motivos: primeiro, era acreditado que os Partidos Comunistas possuíam agentes estrangeiros infiltrados. De acordo com as ordens, o conhecimento sobre as operações com drogas deveria ser mantido a distância dos partidos e o pessoal do partido deveria ser muito cuidadosamente inspecionado antes de ser envolvido em qualquer atividade com as drogas; Segundo, as operações com drogas geravam muito dinheiro e isso poderia levar os partidos à independência financeira. Por isso, as operações deveriam ser mantidas fora das mãos dos partidos para assim mantê-los dependentes de Moscou. O dinheiro das drogas deveria ser, primeiro enviado a Moscou, e depois aos partidos segundo as suas necessidades.

4.       Era muito importante induzir que as inteligências Latinas Americana, a contra inteligência e as forças militares locais a se envolverem nas drogas (as anticomunistas). Estas organizações eram fontes de sentimentos pró-Estados Unidos, e a corrupção causada pelas drogas deveriam ser utilizadas para neutralizar as atitudes pró-Estados Unidos.

O estilo do Khrushchev era ficar sentado e ir interrompendo o palestrante para ir adicionando pontos quando ele considerava que era pertinente. Ele interrompeu Suslov para enfatizar a necessidade de cautela. “O Camarada Suslov”, ele disse, “é particularmente cuidadoso. Eu tentei força-lo a acelerar o processo com as drogas – para fazer a burguesia pagar pelo processo revolucionário – mas eu concordo com ele. Não podemos nos arriscar ainda mais.” Num outro ponto Khrushchev interrompeu e explicou: “Algumas pessoas tentam igualar drogas e álcool, porém álcool não é parecidos com as drogas. Nós damos vodca para os soldados soviéticos e estamos indo de sucesso em sucesso!”.

Suslov também apontou a necessidade de começar a fazer uma reserva para as forças revolucionárias da América Latina, para que as suas necessidades fossem satisfeitas quando elas estiverem prontas para sair do subterrâneo. Pelo o acordo, todos dos países do Pacto Warsaw deveriam começar a contribuir para formar a reserva da América latina.

O discurso de Suslov não deixou dúvidas nenhuma. A operação “Druzhba Narodov” deveria ser global. A burguesia de todos os países eram os alvos. Drogas e narcóticos deveriam ser as principais armas na ofensiva revolucionária.

Enquanto a estratégia Soviética chamada “Druzhba Narodov” ia tomando forma em 1962-1964, provavelmente a melhor, a mais sucinta descrição da filosofia por detrás da operação foi disponibilizada pelo líder da Checoslováquia em 1964 numa visita a Bulgária. Todor Zhivkov, Primeiro Secretário do Partido Comunista da Bulgária, explicou para a delegação visitante da Checoslováquia que os Estados Unidos eram o principal alvo da ofensiva com drogas do Bloco Soviético porque era o principal inimigo, por que era simples mover drogas para dentro dos Estados Unidos e porque existia lá algo como uma fonte infinita de dinheiro.




[1] Citação de Lenin (Não encontrei essa citação do Lenin no www.marxists.org)